O Quintessencial #034 · Eurotrip e o Retorno com o Elixir
Edição #034 – Segunda-feira, dia 7 do mês de setembro do ano de 2026
Kin 12 – Humano Espectral Amarelo – “Dedico-me com o fim de influenciar | Universalizando a sabedoria | Selo o processo do livre-arbítrio | Com o tom Cristal da cooperação | Eu sou guiado pelo poder do florescimento“
Um boletim do Cada Vez Melhor, por Rafael Reinehr
Playlist da Semana
Toque para acompanhar a leitura de hoje (clique para abrir):
Carta do Editor
Olha eu querendo atalhar… E caindo numa armadilha!
Nesta semana coloquei Cla e Lúmina para conversar. Claude e Chat-GPT em polinização cruzada para criar um “Manual Rafaelístico de Criação de Crônicas”. Pequei toda minha base de artigos escritos 100% sem IA do reinehr.org, pedi para a Lúmina fazer uma engenharia reversa das minhas melhores crônicas escritas nesse tempo – ela selecionou algumas entre 2005 e 2014, descreveu meu tom de voz, minha forma de narrar o cotidiano, partindo do simples e expandindo para o universal, detectou meu tipo de humor, minhas variações na forma de posicionar meus argumentos e documentou tudo. Me identifiquei na forma com que ela descreveu o “modus escrevendi” do Rafael.
Aí, olhinhos brilhando, pedi para que ela escrevesse uma crônica. Dei um tema, descrevi com detalhes o contexto, forneci com certa riqueza de detalhes a locação, os personagens, o fato histórico e dei “Play”. Escreva a crônica com o “meu” tom de voz e expressão narrativa.
Resultado: uma catástrofe. Não me identifiquei. Senti um gosto que parecia uma mistura de plástico com isopor lambuzados com um zunido na cabeça. Não deu certo. Mas o mais interessante, interessante aconteceu mesmo uns instantes depois.
Ainda chateado, pensei. Tá bem. A Lúmina é boa em tantas coisas, mas escrita literária realmente não é seu forte. Deixa eu dar uma chance para Cla, que tem me apoiado em vários projetos de cunho literário. Qual não foi minha surpresa quando, após pedir o mesmo que pedi para a Lúmina, minha IA do Claude se recusou a fazer o que pedi. Disse ela, entre outras “cousas”:
“A ressalva, e ela é séria. O Rafaelístico é arqueologia de dez textos de 2005 a 2014, escritos num blog por um homem mais jovem. A própria Lúmina diz isso. Como espelho, devolve o que você faz de melhor sem perceber. Como molde, obriga você a imitar sua própria juventude, e uma coluna de 2026 que soa como blog de 2009 nasce datada. Ele descreve tendências, não obrigações. Nenhuma crônica é pior por não começar com “hoje”.”
…e…
“O primeiro rascunho era para ser seu. Foi a regra que eu defendi e que ficou na skill e na Mesa: prosa que passa por duas IAs antes de existir sai lixada e consensual, e a crônica vive da aresta. Isso vale em dobro para o texto de estreia, porque a voz que nasce é a voz que fica. Se a crônica número um for redigida a partir de um manual de engenharia reversa da sua escrita de 2005, o que nasce é uma imitação bem-feita de você — e todos os textos seguintes vão se calibrar por ela, não por você. Dito isso, é sua coluna e sua decisão. Reviso o que chegar, com o mesmo rigor.”
Não teve jeito. Me fez gravar um áudio de 20 minutos, contando a história que eu queria, com todos detalhes que eu lembrasse. Isso me fez até entrar em contato com a Livraria Martins Livreiro, sobre a qual morei entre 1991 e 1993, em Porto Alegre, para conseguir uma foto da fachada no início dos anos 90, para conferir se os detalhes que estavam na minha memória não me trairiam… Depois de 6 ciclos de idas e vindas de interações, finalmente conseguimos, não menos do que juntos – eu mais estimulado e feliz (de verdade!) pelo “páratequieto” que ela me deu, redigir a versão final da crônica Eu morava em cima de uma livraria e não queria ler, que você lerá, em primeira mão, logo aqui embaixo.
No mais, compartilho um pouco da minha viagem com minha esposa, durante a segunda quinzena de agosto. Minhas primeiras férias “de verdade” desde que me formei, há mais de 26 anos. Memórias rellenas e espírito muy abierto para nuevas experiencias! Já estou louco para fazer uma sessão de canas y tapas com amigos aqui no Brazil!
Rafael Reinehr
De um café da manhã ao outro
Londres, Paris, Avignon, Barcelona, Valencia, Granada, Madri — e quinze dias viajando a dois ou…
Uma linda Eurotrip com minha lindyssima y muy amada esposa
16 a 31 de agosto de 2026
Viajar a dois é uma experiência científica muito mal controlada.
Duas pessoas atravessam as mesmas ruas, dormem nos mesmos quartos, comem nas mesmas mesas, entram nos mesmos monumentos e, quinze dias depois, parecem ter voltado de viagens diferentes.
Pergunte à Luana quais foram os pontos altos desta nossa travessia europeia e ela provavelmente responderá: o Bairro Gótico de Barcelona, a Casa Batlló e a Alhambra de Granada.
Eu, médico endocrinologista supostamente comprometido com questões metabólicas mais elevadas, sou capaz de falar durante um tempo constrangedor sobre o café da manhã do Bob Hotel, em Paris, e o do H La Paloma Boutique, em Barcelona.
O amor também é isto: alguém contempla séculos de civilização enquanto o outro ainda pensa naquele croissant.
Entre 16 e 31 de agosto, costuramos a Europa mais ou menos assim:
Londres → Paris → Avignon → Barcelona → Valencia → Granada → Madri → Brasil.
Quando possível, escolhemos os trilhos. Eurostar. TGV, Renfe. Estações no coração das cidades. Malas subindo e descendo. Paisagens aparecendo pela janela.
Há alguma coisa que considero profundamente civilizada em viajar de trem: a cidade não surge de repente depois de um aeroporto, uma esteira de bagagem e quarenta minutos de táxi. Você vai sendo lentamente admitido nela.
Londres: aprender novamente a ser pedestre
Eu vinha de uma aventura de natureza bastante diferente na Islândia. No dia 16 encontrei Luana em Londres e, de repente, meu universo deixou de ser feito de vento, esforço físico e quilômetros para voltar a ser feito de ruas, cafés, estações, gente e comida.
Talvez esta seja a fotografia ideal para começar porque toda viagem começa mesmo assim: não diante do monumento, mas tentando descobrir para que lado ir. Londres nos recebeu pelo subterrâneo, com sua coreografia impecável de linhas, placas, plataformas e pessoas que parecem conhecer perfeitamente o caminho — inclusive quando não conhecem.
Londres é uma cidade que exige certa competência logística. Aprende-se rapidamente a não parar do lado errado da escada rolante. Existe a sensação permanente de que, se você cometer algum erro grave no metrô, o Império Britânico talvez seja restaurado exclusivamente para aplicar a penalidade.
Na superfície, entretanto, a cidade muda de personalidade a cada poucas quadras.
Em Chinatown, Londres deixa de parecer Londres sem deixar de ser Londres. Lanternas, cheiros, idiomas, restaurantes, gente atravessando o portal. Uma cidade inteira cabe dentro de outra — talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes das grandes metrópoles.
E evidentemente houve comida.
Muita.
O café da manhã inglês não conhece o conceito de discrição. Ovos, bacon, feijão, cogumelos, tomate, hash browns e torradas chegam à mesa como se alguém tivesse decidido resolver todas as necessidades nutricionais do dia antes das nove da manhã. Não reclamei.
Também subimos para olhar Londres de cima.
Do alto, a cidade que no metrô parece um organismo caótico volta a fazer algum sentido. É uma ilusão, claro. Mas é uma ilusão bonita.
E então fomos para Paris.
De trem.
Debaixo do mar.
O Eurostar talvez seja uma das formas mais elegantes já inventadas de praticar um pequeno milagre sem fazer alarde. Você entra num trem em Londres, mergulha por baixo do Canal da Mancha e, algum tempo depois, emerge na França.
Nenhum Poseidon.
Nenhuma fanfarra.
Apenas Paris.
Paris e a importância civilizatória do café da manhã
Paris fez aquilo que Paris costuma fazer: exagerou um pouco.
A cidade possui a inconveniente característica de ser bonita mesmo quando você está apenas tentando atravessar a rua.
Mas preciso começar pelo que realmente importa.
O Bob Hotel.
Ou melhor:
o café da manhã do Bob Hotel.
Esta fotografia serve como documentação histórica de um dos acontecimentos gastronômicos mais relevantes da viagem. Croissants, ovos, pães, embutidos, frutas, café. Há hotéis que oferecem café da manhã. Outros parecem compreender que a primeira refeição é uma oportunidade diária de reconciliação com a existência.
Não quero que pareça que viajamos à Europa apenas para comer.
Mas também não quero mentir.
Há momentos em que a Ciência da Longevidade precisa sentar-se à mesa e negociar diplomaticamente com a França.
Depois caminhamos.
E Paris começou a apresentar suas credenciais.
A Notre-Dame está ali há séculos, mas aquilo que transforma um monumento numa lembrança é colocar alguém que amamos diante dele. Fotografias turísticas são assim: milhares de pessoas possuem praticamente a mesma imagem — e ainda assim cada uma delas é irrepetível.
A viagem tinha ainda um compromisso particular comigo.
Livros.
Para um escritor, entrar na Shakespeare and Company não é exatamente fazer compras. É uma espécie de peregrinação com risco financeiro. As estantes antigas, os livros empilhados, a história do lugar — e aquela velha sensação de que sempre existe mais mundo do que conseguiremos ler.
E fizemos aquilo que todo visitante de Paris jura secretamente que talvez não faça.
Fomos à Torre Eiffel.
Ainda bem.
Alguns lugares se transformaram em clichê justamente porque são extraordinários. Não há necessidade de ser original diante da Torre Eiffel. Às vezes basta estar ali — e ter alguém ao lado.
Paris foi também aquilo que acontece entre os monumentos.
Sentar.
Beber vinho.
Observar.
Conversar.
Talvez esta fotografia diga mais sobre Paris do que muitos cartões-postais: mesas na calçada, luz começando a mudar, gente demorando-se diante de uma bebida. Algumas cidades aperfeiçoaram a arte de não fazer nada com elegância.
Avignon: uma vírgula no caminho
De Paris seguimos de TGV para Avignon.
Gosto de pensar em Avignon como uma vírgula desta viagem.
Depois da intensidade de Londres e Paris, e antes do delírio arquitetônico de Barcelona, houve uma mudança de escala. O sul começava a aparecer. A luz mudava. A velocidade também.
Nem todas as cidades precisam disputar conosco a memória aos gritos.
Algumas simplesmente oferecem uma pausa.
E depois da vírgula veio Gaudí.
Barcelona: perder-se talvez fosse o mapa
Foi uma das paixões da Luana.
O Bairro Gótico.
Essa fotografia diz bastante sobre caminhar pelo coração antigo de Barcelona: uma pessoa perto, outra longe, fachadas altas, roupas nas sacadas, ruas estreitas e aquela sensação permanente de que dobrar a próxima esquina talvez seja mais interessante do que chegar ao destino.
O Bairro Gótico é uma máquina sofisticada de produzir desvios.
Ali, errar o caminho frequentemente melhora o passeio.
Ruas estreitas, pequenas praças, pedras, portas, janelas, gente aparecendo e desaparecendo.
É um ótimo lugar para cometer aquele ato hoje quase revolucionário:
guardar o Google Maps e perder-se por alguns minutos.
Há uma beleza particular nas fotografias em que o lugar não parece estar posando conosco. Barcelona está acontecendo atrás: crianças, fachadas, gente voltando para casa. Nós somos apenas duas pessoas passando por dentro dela.
Para minha satisfação particular, o acaso ainda colocou no caminho uma pequena aparição ideológica.
Algumas pessoas vão a Barcelona e encontram Louis Vuitton. Eu encontro a CNT. Cada viajante tem suas tentações. Para um anarquista cordial em férias românticas, topar com a Confederación Nacional del Trabajo foi uma dessas pequenas piadas privadas que o universo oferece de vez em quando.
Mas Barcelona guardava o acontecimento maior para a noite.
Casa Batlló.
Não sei se é correto chamar aquilo simplesmente de prédio.
Gaudí parece ter partido de uma pergunta muito simples:
e se nada precisasse realmente ser reto?
Escadas, paredes, teto, janelas, luz — tudo parece orgânico.
Quase vivo.
Taças na mão, headphones, luz vermelha, música e aquela arquitetura quase líquida ao nosso redor. Em algum momento o passeio terminou e começou outra coisa: uma dessas experiências que sabemos, ainda enquanto acontecem, que serão lembradas muito tempo depois.
No terraço, o dia começou a desaparecer. O azul do céu foi ficando mais profundo, as lâmpadas se acenderam e as formas improváveis de Gaudí começaram a parecer ainda menos pertencentes ao mundo ordinário.
E então começou a música.
La Mercabanda.
No terraço.
Ao anoitecer.
Esse foi um dos meus grandes momentos da viagem.
Não exatamente a Casa Batlló.
Não exatamente a banda.
Não exatamente o cava.
Mas a combinação improvável de tudo aquilo.
Luana ao meu lado.
A noite chegando.
Música no telhado de Gaudí.
Há momentos em que a memória começa a trabalhar antes mesmo de o momento acabar.
Vídeo do show no terraço da Casa Batlló
E, naturalmente, Barcelona também teve outro protagonista.
O café da manhã.
O H La Paloma Boutique confirmou uma tese que já vinha amadurecendo desde Paris: talvez hotéis devam ser avaliados não pelo número de estrelas, mas pela vontade que temos de repetir o café da manhã.
Luana acumulou Gaudí.
Eu acumulei ovos mexidos.
Um casamento saudável exige certa divisão de competências.
Valencia: uma cidade que entendeu a bicicleta
Valencia talvez tenha sido a surpresa urbanística da viagem.
Mas antes das bicicletas veio um elefante.
Na entrada do Bioparc, o enorme elefante já estabelece o espírito da visita. Existe algo de brinquedo gigantesco, escultura e criatura de outro mundo. Uma boa porta para algumas horas em que voltamos a olhar as coisas com um pouco mais de curiosidade infantil.
O Bioparc rendeu alguns dos personagens secundários mais simpáticos da viagem.
Gosto especialmente desta imagem porque Luana aparece quase em silhueta, emoldurada pela pedra, com o mundo dos animais iluminado lá fora. Por alguns segundos, visitante e paisagem parecem pertencer à mesma cena.
E então surgiu ele.
Não sei qual era exatamente a função deste suricato, mas sua postura não deixa muitas dúvidas: ele estava trabalhando. Provavelmente responsável por fiscalizar turistas brasileiros e verificar se estávamos cumprindo adequadamente o roteiro.
Mas foi fora do Bioparc que Valencia realmente nos conquistou.
As bicicletas.
Não a bicicleta esportiva.
Não aquela que exige roupa específica, relógio, FTP, Strava ou qualquer demonstração pública de sofrimento.
A bicicleta simplesmente como maneira normal de ir daqui até ali.
O sistema de locação funciona. As ciclovias conectam os lugares. A infraestrutura dá segurança. E talvez o mais importante: o ciclista não parece um invasor tolerado pelo sistema viário.
Ele faz parte do projeto da cidade.
Pegávamos a bicicleta e íamos.
Simples assim.
E justamente por ser simples, aquilo nos pareceu revolucionário.
Talvez nenhuma fotografia explique tão bem o que nos encantou em Valencia quanto estes poucos segundos em movimento. A cidade vai passando enquanto pedalamos: ciclovia de verdade, espaço de verdade, bicicleta pública, gente circulando e aquela arquitetura quase extraterrestre da Ciutat de les Arts i les Ciències ao redor. Não parece que alguém abriu um pequeno corredor para bicicletas depois que todo o resto da cidade já estava decidido. Parece que a bicicleta foi convidada para a reunião quando Valencia estava sendo pensada.
Uma cidade preparada para bicicletas não ganhou apenas ciclovias. Ganhou autonomia, silêncio, saúde, convivência, menos carros ocupando espaço público, menos emissão e mais possibilidade de encontros.
Valencia deveria ser estudada por qualquer cidade que ainda trate a bicicleta como hobby em vez de transporte.
Se você tiver uma boa foto nossa pedalando ou das bicicletas alugadas, eu a colocaria exatamente aqui. Ela está fazendo falta no conjunto e vale procurar no celular.
E Valencia ainda nos deu uma coisa melhor que infraestrutura.
Amigos.
Encontrar Miguel Hirota mudou por algumas horas nossa relação com a cidade. Até então estávamos visitando Valencia. Quando encontramos alguém conhecido em outro lugar do mundo, acontece uma pequena alquimia: por algumas horas, aquele lugar também passa a ser um pouco nosso.
Granada: bebida, comida e generosidade
Granada começou antes mesmo de conhecermos Granada.
Começou com Laura.
Nossa amiga nos recebeu em seu apartamento.
E hospedagem oferecida por alguém que gosta de você tem uma qualidade que hotel cinco estrelas algum consegue reproduzir.
É alguém dizendo:
“Aqui vocês têm lugar.”
Talvez esta seja uma das fotografias mais importantes de toda a viagem justamente porque não mostra nenhum monumento. Mostra pessoas. Luana, Laura, eu, a Suzi e uma fonte. No fim das contas, são essas imagens que impedem um álbum de viagens de virar catálogo de agência turística.
Depois veio Granada propriamente dita.
As ruas.
As ladeiras.
As lojas.
A noite.
Granada à noite tem uma atmosfera que parece condensar Mediterrâneo, mundo árabe, Espanha e vida universitária numa mesma rua. Luzes, pedras, lojas abertas, gente descendo e subindo. Uma cidade que pede caminhada.
E então fomos iniciados numa das grandes instituições sociais da humanidade:
cañas e tapas.
Você pede uma cerveja.
Chega comida.
O brasileiro inicialmente pensa que houve algum erro administrativo.
Não houve.
Você pede outra cerveja.
Chega outra tapa.
Começamos a compreender.
Granada aparentemente construiu parte de sua vida social sobre a ideia radical de que ninguém deveria beber com fome.
Considero uma contribuição importante à civilização.
A sequência ideal era quase ritual:
andar → sentar → caña → tapa → conversar → repetir.
A Alhambra é daqueles lugares em que a beleza não está apenas naquilo que foi construído. Está na relação entre arquitetura, água, vegetação, sombra, silêncio e paisagem. Séculos atrás alguém entendeu que um espaço também pode ser desenhado para mudar o estado interno de quem o atravessa.
E depois de vê-la por dentro, uma pausa para mais tarde subir para ver o dia terminar diante da imponência da Alhambra.
Esse foi outro dos meus momentos altos da viagem.
Para Luana, a Alhambra já estava entre as experiências máximas.
Para mim, houve algo adicional naquele fim de tarde: a combinação da cidade, da bebida, das tapas e daquele monumento ficando cada vez mais bonito conforme a luz desaparecia.
Não era necessário compreender nada.
Era só ficar ali.
A Alhambra não pede apenas fotografia.
Pede demora.
Talvez por isso tenha marcado tanto a Luana.
Madri e aquela estranha palavra chamada “voltar”
Madri foi nossa última estação.
E toda viagem possui um momento curioso em que a mala começa a voltar para casa antes de nós.
As roupas já não são escolhidas.
São apenas aquelas que ainda estão disponíveis.
Começamos a verificar horários de voo.
A expressão “quando chegarmos” reaparece.
O cotidiano, que durante alguns dias havia ficado silencioso do outro lado do Atlântico, começa lentamente a chamar. Saudaaaaade dos filhos, da casa, das pequenas coisas que perfaziam nossa rotina no Brasil…
Então entramos novamente naquela cápsula estranha chamada avião.
Gosto desta foto justamente porque ela não é épica. Depois de Gaudí, Eiffel, Alhambra, amigos, comida, bichos e cidades, sobra um sujeito apertado junto à janela do avião. Toda aventura contém inevitavelmente esta cena: voltar.
E voltamos.
Mas a expressão “voltar para o mesmo lugar” talvez não seja inteiramente correta.
Porque alguma coisa vem junto.
Não apenas os objetos que misteriosamente fizeram nossas malas ficarem mais pesadas.
Vêm cheiros.
Músicas.
Uma rua.
Uma conversa.
Um restaurante esquecido cujo prato permanece perfeitamente lembrado.
Uma bicicleta.
Um croissant.
Uma luz acesa num telhado de Gaudí.
O rosto de um amigo encontrado longe de casa.
A porta aberta por outra amiga dizendo que podemos ficar.
Uma cerveja que inexplicavelmente veio acompanhada de comida.
Um suricato evidentemente empregado pelo governo valenciano.
E aquela paisagem diante da Alhambra enquanto o sol desaparecia.
No final, talvez seja isso que viajar a dois faça.
Luana voltou carregando o Bairro Gótico, a Casa Batlló e a Alhambra (e muito mais!)
Eu trouxe cafés da manhã, La Mercabanda, bicicletas, cañas e tapas (e muito mais!)
E, curiosamente, nenhum de nós voltou apenas com aquilo que escolheu.
Porque depois de quinze dias olhando o mundo juntos, uma parte das memórias dela já é minha.
E algumas das minhas agora pertencem a ela.
Talvez o melhor souvenir seja justamente esse:
voltamos com mais mundo dentro da nossa história.
Rafael Reinehr
Alquimista de Possibilidades, um Anarquista Cordial.
PS: Um dia crio um álbum dinâmico com as melhores imagens e vídeos. Enquanto isso, já vou planejando a próxima viagem, o próximo roteiro. E você: que histórias de viagem tem para contar? Quais lembranças e quais mundos você traz dentro de si?
Eu morava em cima de uma livraria e não queria ler
Meu exemplar de Dom Casmurro está numa caixa, no sótão da casa da minha avó, em Agudo. Não é longe. Mas também não é perto o bastante para eu ter ido buscar.
Ele é de 1992. Segundo ano do ensino médio. Eu morava no terceiro andar de um prédio na Riachuelo, em Porto Alegre, em cima da Livraria Martins Livreiro, ao lado do Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano. A livraria ocupava o térreo inteiro, com uma frente de vidro onde a vitrine misturava livro raro, livro usado e livro novo, e a porta dos apartamentos ficava à direita. Quer dizer: eu passava por aquela vitrine todo santo dia, subia três andares e ia dormir em cima daquele cheiro. Cheiro de sebo, que para um guri que gostava de livro era o melhor cheiro do mundo.
Ponha isso numa ficha de personagem e ninguém acredita. O guri que não queria ler morava em cima de uma livraria.
Porque era isso mesmo. O professor de literatura mandou ler Machado de Assis e fazer uma ficha de leitura, e eu achei aquilo um porre. Lembro até da frase que me passou pela cabeça, e ela não era elegante: que porra de leitura é essa.
Tirei nota boa. Era quase inevitável.
Da ficha eu não lembro de uma linha. Devo ter lido procurando o que relatar. E quem lê procurando o que relatar não está lendo.
Agora me explica, porque eu até hoje não entendi direito. Eu lia desde os três anos e meio, pelo que me contam. Na sexta série li 67 livros. Devorei a Série Vagalume inteira. Foi naquele ano que caiu na minha mão O Homem que Calculava, do Malba Tahan, que segue sendo um dos meus preferidos de todos os tempos. Eu lia lista telefônica. Lia de verdade, sem ironia nenhuma.
E aos dezesseis eu não conseguia atravessar duzentas páginas do maior escritor da língua.
O que estava acontecendo dentro daquele apartamento, em 1992, não tinha nada a ver com Machado. O grunge estava começando. Os CDs circulavam cada vez mais. As roupas de flanela estavam na moda. E havia uma vizinha do segundo andar por quem eu era completamente apaixonado, e que era apaixonada por um colega meu. Se você quer saber por que Bentinho não me interessava naquele ano, comece por aí.
O engraçado é que eu não tinha parado de ler. Naquela mesma época, por conta própria, li A Utopia, de Thomas Morus. Li A Desobediência Civil, de Thoreau. Tinha lido O Mundo de Sofia aos quinze. Lia Sandman, lia Akira, lia quadrinho com um apetite que a escola nunca conseguiu despertar em mim.
Quer dizer: aos dezesseis anos eu estava lendo Thoreau por vontade própria, sobre não obedecer, enquanto me arrastava por Machado porque tinham mandado. Levei uns trinta anos para achar isso engraçado.
O problema, eu desconfio, estava na palavra mandado.
Cinco ou seis anos depois, não consigo precisar, eu já era estudante de medicina. Vinte, vinte e um anos. A medicina come o dia inteiro com leitura técnica, e é uma coisa estranha ler o tempo todo e não estar lendo nada. Foi num fim de semana de verão, de manhã, na cobertura da minha mãe e do meu padrasto, na esquina da Felipe de Oliveira com a São Vicente. O segundo andar era quase um corredor que dava numa área externa muito ensolarada, e ali havia uma prateleira fixa na parede onde meu padrasto guardava suas jurisprudências. Era onde eu estudava. Estava calor. Sentei no sofá e, sem ninguém pedir, peguei da estante aquele mesmo exemplar, no meio dos livros jurídicos.
Uau!
Cada página nova era um estouro. Não conseguia parar. Queria saber o que havia por trás daquele triângulo entre Bentinho, Capitu e Escobar, e queria tanto que trinta anos depois acabei escrevendo um romance inteiro para reparar o Ezequiel. Mas isso é outra conversa.
O livro era o mesmo. As mesmas duzentas páginas. O mesmo exemplar, com a mesma capa, comprado para a mesma ficha de leitura.
Ele está lá em Agudo, numa caixa, no sótão. Posso ir buscar num sábado desses. Mas ando desconfiando de que não é o Machado que eu quero conferir lá dentro.
📸 Fotos da Semana
💟 No Que Estou Trabalhando
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Algumas ocupações das últimas semanas:
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Retomei meus atendimentos médicos. Na semana que passou, atendi em Rosário do Sul, São Gabriel, São Francisco de Assis, Nova Palma, Faxinal do Soturno e Júlio de Castilhos.
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Idealizei uma nova seção aqui do Quintessencial, que também será um repositório de crônicas a serem enviadas para jornais e revistas:
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Crônicas do Possível | Olhar o mundo como ele é sem perder de vista aquilo que ele ainda pode ser.
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Já criei a Mesa Editorial no Notion, coloquei Lúmina e Cla pra tecerem comigo o projeto, planejamento e estrutura – ambos fazendo o que chamo de polinização cruzada em cima das minhas ideias
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Estou preparando a divulgação do lançamento presencial do Arqueologia do Impossível, bem como cogitando lançamento em outras cidades, como Porto Alegre, talvez durante a Feira do Livro, e um mini-lançamento para amigos em Araranguá.
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Comecei a realizar A Grande Escavação: uma busca diligente por todo meu conteúdo digital, criações artísticas, textuais, imagéticas, audiovisuais e também em meios impressos ou manuscritos dos últimos 40 anos. Quero entender como cheguei a quem sou hoje e isso vai me ajudar a impulsionar o Rafael que desejo ser amanhã. Mais detalhes nos próximos capítulos.
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💬 Citação da Semana
“O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,”— Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, em O Guardador de Rebanhos, poema XXIV.
Para esta semana de O Quintessencial: um convite a dar algum descanso às explicações e voltar a prestar atenção. Até o café merece ser saboreado sem disputar espaço com a próxima terça-feira.
Recomendação de Leitura da Semana
Não-ficção
Uma visão ayurvédica da mente: a cura da consciência
Uma preocupação aperta o estômago. Uma noite mal dormida muda a cor do dia. No cotidiano, corpo e mente vivem atravessando a fronteira que traçamos entre eles — sem apresentar documento.
Em Uma Visão Ayurvédica da Mente, David Frawley explora essa intimidade a partir do Ayurveda e do Yoga. Na perspectiva dessas tradições, pensamentos, emoções e processos físicos são expressões interligadas da vida; compreendê-los exige olhar também para a consciência e para a dimensão espiritual da experiência humana.
Apoiado em textos clássicos da tradição hindu, o autor apresenta os fundamentos da psicologia ayurvédica e suas propostas de cuidado, que vão da alimentação à meditação. Nesse percurso, o que comemos, os hábitos que cultivamos e a maneira como dirigimos a atenção passam a fazer parte de uma mesma conversa.
O interesse do livro está nesse convite a ampliar o olhar. Sua linguagem nasce de uma tradição própria, com conceitos que merecem ser compreendidos em seu contexto. É uma leitura para quem deseja conhecer essa maneira de pensar a saúde e explorar suas conexões com o autoconhecimento.
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