Antes do lado, o dado
“O Partido mandava rejeitar a evidência dos próprios olhos e ouvidos. Era sua ordem final, a mais essencial.”
— George Orwell, 1984Orwell imaginava uma distopia em que o poder precisava controlar os fatos para controlar a realidade. Talvez o que ele não pudesse prever fosse algo mais inquietante: um tempo em que não seria necessário um Ministério da Verdade. Bastariam milhões de pequenas telas, algoritmos, grupos fechados e pessoas sinceramente convencidas de estar apenas “compartilhando informação”.
É sobre isso que este texto trata. Não sobre esquerda contra direita. Mas sobre aquilo que acontece quando deixamos de disputar interpretações da realidade e começamos a viver em realidades diferentes.
Recebi recentemente um comentário que poderia ter vindo de milhares de brasileiros. Não vou reproduzir aqui o nome da pessoa, porque o que me interessa não é constrangê-la – muito menos transformá-la em exemplo de “ignorância”. Interessa-me algo muito maior: entender como pessoas perfeitamente capazes, honestas e bem-intencionadas podem acabar habitando realidades factuais diferentes.
O comentário dizia, em síntese: a inflação está “nas alturas”; a segurança pública está péssima; os feminicídios aumentaram; Lula mantém relações com “comunistas e terroristas”; os gastos com viagens são altíssimos; planos de governo não significam nada; e a Amazônia continua queimando.
O curioso é que essa mensagem não é inteiramente falsa.
E é precisamente aí que mora o problema.
A desinformação mais eficiente raramente é uma mentira grotesca inventada do zero. Muitas vezes ela funciona como uma colagem: um fato verdadeiro, outro desatualizado, um número sem denominador, uma afirmação sem contexto, uma opinião apresentada como estatística e, por fim, uma conclusão emocional muito maior do que aquilo que os dados permitem afirmar.
Então proponho um exercício diferente. Nada de “lacrar”. Nada de substituir propaganda de direita por propaganda de esquerda.
Vamos aos dados.
Dados consultados até 3 de outubro de 2026.
“A inflação está nas alturas”
“N̂as alturas” não é uma categoria estatística.
Em agosto de 2026, o IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,22%. A prévia de setembro, medida pelo IPCA-15, ficou em 4,47% em 12 meses. A meta oficial é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. Portanto, a inflação merece atenção e permanece acima do centro da meta, mas os dados mais recentes a colocam dentro ou praticamente no limite superior da faixa de tolerância. IBGE
É importante não maquiar a história: em 2025 houve, sim, um problema inflacionário relevante. Em junho daquele ano, o IPCA em 12 meses chegou a 5,35% e completou seis meses fora da faixa permitida, levando o Banco Central a reconhecer formalmente o descumprimento da meta. Aprender Valor
Mas também é preciso manter proporção histórica. Em 2021, a inflação foi de 10,06%; em 2022, 5,79%. Agência de Notícias IBGE
Há ainda uma confusão frequente: queda da inflação não significa queda dos preços.
Se algo custava R$ 100 e passou a R$ 110, inflação menor significa que talvez passe a R$ 114 no ano seguinte, e não que volte a custar R$ 100. Por isso é perfeitamente possível uma pessoa perceber o supermercado caro e, simultaneamente, a taxa de inflação estar caindo. As duas coisas podem ser verdade.
Esse pequeno detalhe explica muita briga de WhatsApp.
“A segurança pública está péssima”
Aqui temos outro problema: “péssima” é percepção, e percepção de insegurança importa. Há regiões violentíssimas no Brasil, crime organizado, roubos, violência contra mulheres, letalidade policial e uma explosão de crimes digitais.
Mas, quando usamos um dos indicadores mais robustos de violência letal, aparece uma realidade que dificilmente caberia num meme.
Em 2025, o Brasil registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais, taxa de 19,1 por 100 mil habitantes. Foi uma redução de 8,2% em relação a 2024 e a menor taxa registrada desde o início da série do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2012. Fonte Segura
Isso significa que o Brasil se tornou seguro?
Evidentemente não.
O próprio Anuário de 2026 apresenta um quadro muito menos confortável: enquanto as mortes violentas diminuíram, feminicídios, letalidade policial e crimes digitais continuam sendo problemas graves. Publicações Fórum Segurança
Portanto, a frase correta não é “está tudo ótimo” nem “a violência explodiu”.
É algo menos emocionante – e justamente por isso mais verdadeiro:
a violência letal geral caiu significativamente, enquanto modalidades específicas de violência permanecem graves ou pioraram.
A realidade tem esse inconveniente: ela costuma caber mal em slogans.
“O feminicídio aumentou”
Aqui é particularmente importante reconhecer quando o interlocutor tem razão.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, aumento de aproximadamente 4% em relação a 2024. Ao mesmo tempo, o total de homicídios de mulheres caiu 5,5%. Scribd
Ou seja: houve melhora na mortalidade violenta feminina geral, mas piora na parcela caracterizada como feminicídio.
Esse é um dado terrível, qualquer que seja o governo.
Já em 2026 surgiu um sinal inicial diferente. Os registros do Sinesp mostram 848 feminicídios entre janeiro e julho, contra 876 no mesmo período de 2025 – redução de 3,2%. Como os dados ainda são parciais e sujeitos a revisão, não seria intelectualmente honesto anunciar que o problema está resolvido. Serviços e Informações do Brasil
A resposta correta à afirmação “o feminicídio aumentou”, portanto, é:
Sim, aumentou em 2025. Em 2026, até julho, está diminuindo. E continua sendo uma tragédia nacional intolerável.
Fact-checking não pode significar procurar apenas números que beneficiem nossa tribo.
Senão deixa de ser fact-checking e vira torcida organizada com Excel.
“Lula tem relacionamento com comunistas e terroristas”
Aqui várias coisas diferentes são empacotadas numa única frase emocionalmente poderosa.
O governo Lula realmente restabeleceu relações diplomáticas plenas com a Venezuela em 2023, reabriu as embaixadas e recebeu Nicolás Maduro em Brasília. Isso é fato e pode, legitimamente, ser discutido ou criticado como política externa. Serviços e Informações do Brasil
Mas relações diplomáticas não são sinônimo de adesão ideológica. Estados mantêm relações com governos das mais diversas orientações políticas porque diplomacia também envolve comércio, fronteiras, migração, segurança e negociação internacional.
Quanto à palavra “terroristas”, se a referência for ao Hamas, o registro público é incompatível com a ideia simplificada de apoio à organização. Lula declarou publicamente que era necessário condenar os ataques do Hamas contra civis israelenses e exigir a libertação dos reféns. Em discurso na União Africana, afirmou explicitamente essa posição. Na ONU, a representação brasileira descreveu os ataques de 7 de outubro como ações terroristas e exigiu a libertação imediata dos reféns. Serviços e Informações do Brasil
Isso não significa que alguém seja obrigado a concordar com a política externa de Lula para Venezuela, Cuba, Israel, Palestina ou qualquer outro país.
Significa apenas que criticar exige criticar aquilo que realmente aconteceu.
Já temos problemas reais em quantidade suficiente. Não precisamos fabricar outros.
“Plano de governo bonito não quer dizer nada”
Aqui eu concordaria com a premissa.
Programa eleitoral é promessa.
Democracias deveriam aprender a avaliar governos não pelo PowerPoint, pelo jingle ou pelo discurso, mas pelos indicadores observados durante sua gestão.
E eles oferecem um quadro misto.
No segundo trimestre de 2026, o desemprego brasileiro estava em 5,4%. O PIB crescia 1,9% em quatro trimestres. IBGE
A FAO, órgão das Nações Unidas, confirmou em 2026 que o Brasil permaneceu fora do Mapa da Fome: a prevalência estimada de subnutrição no triênio 2023–2025 ficou abaixo dos 2,5% utilizados como limite pela organização. FAOHome
Mas há dados desconfortáveis que também precisam entrar na fotografia. Em julho de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,5% do PIB, enquanto o déficit nominal acumulado em 12 meses estava em 9,34% do PIB. A situação fiscal brasileira, portanto, segue sendo um problema importante. Banco Central
Essa é exatamente a diferença entre informação e propaganda.
A propaganda escolhe os números que favorecem sua narrativa.
A análise procura também aqueles que a incomodam.
“Os gastos com viagens são altíssimos”
Há um núcleo factual importante aqui.
Segundo o Portal da Transparência, o governo federal gastou com viagens a serviço aproximadamente R$ 1,54 bilhão em 2022; R$ 2,28 bilhões em 2023; R$ 2,38 bilhões em 2024; e R$ 2,46 bilhões em 2025, em valores nominais. Portal da Transparência
É perfeitamente legítimo questionar esses gastos e exigir demonstração de interesse público.
O erro aparece quando esses bilhões são divulgados nas redes como se fossem “as viagens de Lula”.
Não são.
O Portal deixa claro que o total engloba viagens a serviço realizadas por órgãos e entidades federais abrangidos pelos sistemas de registro: servidores, ministros, técnicos, pesquisadores, diplomatas, fiscais e inúmeros outros agentes públicos. Portal da Transparência
Para avaliar especificamente viagens presidenciais é necessário somar informações dispersas entre Presidência, Itamaraty, segurança, logística, hospedagem e outros órgãos. Comparações históricas ainda precisam corrigir inflação e levar em conta anos atípicos como 2020 e 2021.
Ou seja: há gasto elevado e ele deve ser fiscalizado. O número, porém, precisa dizer aquilo que realmente mede.
“E a Amazônia continua queimando”
Sim.
Há incêndios na Amazônia.
Isso nunca deveria ser minimizado, independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.
O Brasil viveu, inclusive, uma temporada de incêndios ambientalmente gravíssima em 2024, em contexto de seca excepcional e forte pressão de queimadas. Portanto, alguém preocupado com a floresta tem razões legítimas para continuar vigilante. Serviços e Informações do Brasil
Mas queimadas e desmatamento não são a mesma variável.
O número consolidado do PRODES para 2025 registrou 5.731 km² de desmatamento na Amazônia Legal, redução de 12,07% em relação a 2024. Já os alertas DETER no ciclo agosto de 2025–julho de 2026 caíram 36%, atingindo o menor valor da série histórica iniciada em 2016. Serviços e Informações do Brasil
Quanto ao fogo, em junho de 2026 o INPE detectou 5.209 focos ativos no Brasil, número 14% menor que em junho de 2025 e 27% abaixo da média histórica daquele mês. A Amazônia respondeu por 26,2% das detecções. Serviços e Informações do Brasil
Portanto:
a Amazônia continua sofrendo queimadas – e continuará exigindo enorme vigilância – mas o desmatamento e vários indicadores recentes de fogo apresentam melhora.
Podemos celebrar uma redução e, ao mesmo tempo, considerar o patamar ainda inaceitável.
Essas ideias não brigam entre si.
E então chegamos ao problema maior: como construímos realidades paralelas?
A desinformação política não nasceu no bolsonarismo e certamente não é monopólio da direita. Pessoas de esquerda, centro e direita são perfeitamente capazes de acreditar e compartilhar informações falsas quando elas confirmam aquilo que já desejavam acreditar.
Mas seria igualmente incorreto fingir que nada específico aconteceu no ecossistema político brasileiro a partir de 2018.
Há literatura científica documentando extensivamente o papel das redes bolsonaristas no WhatsApp durante as eleições daquele ano. Um estudo publicado na Intercom — Revista Brasileira de Ciências da Comunicação analisou 194.710 mensagens em 21 grupos de apoio a Bolsonaro e encontrou forte concentração da disseminação: os cem usuários mais ativos eram responsáveis por cerca de 41% das mensagens. O WhatsApp funcionava integrado a YouTube, Facebook, Instagram e Twitter, formando uma verdadeira malha de circulação de conteúdo. SciELO
Outro estudo, publicado em 2023 na revista Social Media + Society, reconstruiu como redes de desinformação pró-Bolsonaro utilizadas durante a eleição continuaram operando posteriormente, inclusive por WhatsApp e outras plataformas. O estudo se baseou em entrevistas com pesquisadores, jornalistas e verificadores que acompanhavam esse ecossistema. Sage Journals
Pesquisa sobre as eleições de 2022 realizada em parceria com o próprio TSE e organizações de fact-checking demonstrou novamente circulação multiplataforma de alegações enganosas envolvendo WhatsApp, Twitter e Kwai. OUP Academic
E pesquisadores da Harvard Kennedy School observaram aumento acentuado de mensagens associadas ao ambiente mobilizador bolsonarista após as eleições de 2022, acompanhando acontecimentos que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Misinformation Review
Reconhecer isso não significa declarar que todo bolsonarista mente.
Seria uma estupidez equivalente àquela que queremos combater.
Significa reconhecer algo muito mais interessante: foi construída uma tecnologia social extremamente eficiente de produção, seleção e retransmissão de narrativas.
A OCDE chama atenção justamente para esse fenômeno mais amplo. Plataformas digitais podem amplificar conteúdo polarizador, sensacionalista ou enganoso; repetição e segmentação degradam a capacidade de sociedades democráticas estabelecerem uma base factual comum. Por isso a organização recomenda alfabetização midiática, pluralidade de fontes, transparência das plataformas, pesquisa independente e fortalecimento do jornalismo – e cita inclusive o programa permanente da Justiça Eleitoral brasileira contra a desinformação. OECD
A mentira raramente chega vestida de mentira
Ela chega pela tia que amamos.
Pelo amigo da infância.
Pelo colega de trabalho.
Pelo médico, professor, pastor, empresário ou agricultor em quem confiamos.
Chega acompanhada de um “olha isso antes que apaguem”.
Depois encontra outra mensagem parecida.
Depois outra.
E então acontece algo fascinante e perigoso: a repetição passa a produzir sensação de evidência.
Não porque as pessoas sejam burras.
Porque cérebros humanos funcionam assim.
Todos os nossos cérebros.
O viés de confirmação não pede título de eleitor antes de entrar.
Por isso não quero vencer pessoas. Quero vencer um método.
Talvez este seja nosso erro mais persistente na discussão política brasileira.
Encontramos alguém que acredita numa informação falsa e imediatamente concluímos que essa pessoa é ignorante, mau-caráter ou irrecuperável.
Ela percebe o desprezo.
A conversa termina.
E a bolha agradece.
Quando o objetivo passa a ser humilhar o adversário, a correção factual perde sua potência educativa.
Prefiro outro caminho.
Diante de uma afirmação, perguntar:
Qual é a fonte?
De que período estamos falando?
Esse número é absoluto ou proporcional?
Qual é a série histórica?
Existe outro indicador que conte uma parte diferente da história?
Uma fonte independente confirma esse dado?
Aquilo que estou compartilhando continuaria me parecendo convincente se beneficiasse o candidato de quem eu menos gosto?
Essa última pergunta talvez seja uma das melhores vacinas intelectuais já inventadas.
O que os fatos deste comentário realmente mostraram?
Algo muito diferente de “Lula é ótimo” ou “Lula é péssimo”.
Mostraram que a inflação continua merecendo atenção, embora esteja muito abaixo dos patamares de 2021 e hoje próxima da faixa da meta. Que as mortes violentas caíram enquanto o feminicídio piorou em 2025. Que os primeiros dados de 2026 mostram redução deste último. Que os gastos federais com viagens são elevados e merecem escrutínio, mas não correspondem simplesmente às viagens pessoais do presidente. Que Lula mantém relações diplomáticas controversas com governos como o de Maduro, ao mesmo tempo em que o registro público mostra condenação aos ataques terroristas do Hamas. Que o desmatamento amazônico caiu fortemente, embora incêndios continuem sendo um enorme problema ambiental. Que desemprego e fome melhoraram, enquanto dívida pública e resultado fiscal continuam preocupantes. Fonte Segura
Essa fotografia não cabe numa camiseta vermelha nem numa camiseta verde-amarela.
Talvez seja justamente esse o seu valor.
Democracia começa antes do voto
Ela começa quando aceitamos que existe uma realidade independente das nossas preferências.
Podemos discordar sobre impostos, tamanho do Estado, aborto, armas, política ambiental, segurança pública, relações internacionais ou qualquer outro assunto.
Podemos inclusive olhar exatamente para os mesmos fatos e chegar a conclusões políticas diferentes.
Isso faz parte da democracia.
O que não deveria fazer parte dela é precisarmos fabricar fatos diferentes para sustentar nossas diferenças.
Não quero convencer alguém a votar como eu.
Quero algo simultaneamente mais modesto e mais ambicioso:
que, quando formos escolher nossos caminhos, estejamos pelo menos olhando para o mesmo mundo.
Isso não acontecerá amanhã.
Não se desfaz em três posts uma rede construída ao longo de anos.
Será preciso educação. Paciência. Jornalismo. Ciência. Alfabetização digital. Conversas que não terminem quando alguém discorda de nós.
E também alguma humildade — inclusive a nossa.
Porque ninguém está imunizado contra a desinformação apenas por se considerar bem informado.
A verdade não precisa de torcida.
Precisa de gente disposta a procurá-la.
Rafael Reinehr
P.S. — Não se trata de escolher um lado. Trata-se de escolher a realidade.
Nada do que escrevi acima pretende sugerir uma equivalência confortável entre os campos políticos, como se todos tivessem mantido a mesma relação com os fatos, com a ciência ou com as instituições. Este texto concentrou-se em verificar afirmações específicas daquele comentário — por isso sua fotografia é necessariamente parcial. Se ampliássemos o enquadramento, teríamos também de lembrar que o bolsonarismo e setores da direita radical brasileira carregam um histórico documentado, não imaginado, de declarações misóginas — incluindo falas de Jair Bolsonaro pelas quais chegou a responder no STF por incitação ao crime de estupro — e de redução das políticas de enfrentamento à violência contra a mulher: segundo a Human Rights Watch, o orçamento federal destinado a essa finalidade caiu 90% em 2022 em comparação com 2020. Supremo Tribunal Federal Teríamos igualmente de colocar sobre a mesa o enfraquecimento da fiscalização ambiental durante seu governo, a desestruturação de órgãos como o Ibama e os ataques públicos às instituições que mediam aquilo que o governo talvez preferisse não enxergar; nesse período, o desmatamento amazônico atingiu em 2021 seu maior nível em quinze anos, enquanto organismos independentes documentaram queda expressiva da capacidade de fiscalização. Human Rights Watch E teríamos de recordar os cortes que ameaçaram dezenas de milhares de bolsas científicas e chegaram a reduzir em 92% o orçamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em 2021. Nature Nada disso transforma a esquerda em depositária automática da verdade, nem torna imunes ao erro aqueles que se opõem à extrema-direita. Esse é justamente o ponto. Não estou propondo substituir uma fabricação de realidade por outra mais simpática às minhas convicções. Estou propondo algo muito mais exigente: que nenhuma identidade política receba licença para falsificar o mundo. Podemos discutir valores, prioridades e projetos de sociedade até o fim dos tempos; mas, antes disso, precisamos preservar um chão comum onde uma árvore derrubada continue sendo uma árvore derrubada, uma mulher assassinada continue sendo uma mulher assassinada e um número medido continue existindo mesmo quando desagrada à nossa tribo. A disputa que me interessa aqui não é direita contra esquerda. É verdade contra fabricação da realidade. E nessa disputa, se formos coerentes, não existe “nosso” mentiroso de estimação.
Fontes e leituras principais
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IBGE — inflação, desemprego e PIB: IPCA de 4,22% em 12 meses até agosto de 2026, desemprego de 5,4% no segundo trimestre e crescimento de 1,9% do PIB em quatro trimestres. Painel de indicadores do IBGE
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Banco Central — metas e situação fiscal: meta de inflação de 3%, faixa de 1,5% a 4,5% e estatísticas de dívida e déficit. Banco Central — metas de inflação
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Fórum Brasileiro de Segurança Pública — Anuário 2026: menor taxa de mortes violentas da série e crescimento dos feminicídios em 2025. 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública
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MJSP/Sinesp — feminicídios em 2026: redução de 3,2% de janeiro a julho na comparação anual. Dados nacionais de feminicídio
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INPE — Amazônia: PRODES, DETER e Programa Queimadas. PRODES 2025
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FAO/ONU — segurança alimentar: Brasil abaixo do limiar de 2,5% de prevalência de subnutrição no período 2023–2025. Mapa Mundial da Fome 2026 — FAO
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OCDE — integridade da informação: relatório Facts not Fakes, sobre polarização, desinformação, alfabetização midiática e fortalecimento democrático. Facts not Fakes — OECD
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Pesquisa acadêmica sobre WhatsApp e bolsonarismo: estudos revisados por pares documentam a organização e circulação de conteúdo nas redes políticas de 2018 e 2022. Estudo Intercom/Scielo sobre redes bolsonaristas no WhatsApp
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Harvard Kennedy School Misinformation Review: análise da circulação de conteúdo entre WhatsApp, Twitter e mídia no período que antecedeu o 8 de janeiro. Estudo da Harvard Kennedy School
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Contei com forte apoio e pesquisa dos dados via Chat-GPT 5.6 Sol. Os dados e fontes NÃO foram checados individualmente e devem ser tomados com cautela. Esta informação invalida todas as conclusões do artigo? Do meu ponto de vista, não. Apenas reforçam a importância de que você, leitor, busque as fontes e faça sua checagem sempre que algo lhe soar “doído” no ouvido.

