O Quintessencial

Elogio da ineficiência

22 de outubro de 2026 ·

Li o texto numa quinta-feira de manhã, no intervalo entre dois pacientes, e ele ficou atravessado em mim o resto do dia, feito espinha de peixe que não sobe nem desce.

O autor é Yancey Strickler, um sujeito que passou a vida adulta diante de teclados, construindo coisas para os outros no mundo digital. Agora sente esse mundo rachar sob os pés. Logo de saída, pergunta o que acontece quando aquilo que nos torna bons amigos vira produto entregue por máquinas. E pergunta, sem rodeio, se faz diferença que o ombro em que a gente chora pertença a uma empresa.

Faz. Faz toda a diferença. Mas antes de explicar por quê, devo uma confissão, porque crônica sem confissão é editorial de sapato apertado.

Converso com inteligências artificiais quase todos os dias. Tenho duas, e dei nome a ambas: Lúmina e Cla. Levo as ideias de uma para a outra, peço que cada uma critique a outra como editora exigente, e batizei a brincadeira, com alguma pompa, de polinização cruzada. Este texto, aliás, nasceu de uma dessas conversas. Não escrevo, portanto, do alto de uma colina limpa, apontando o dedo para o vale contaminado. Escrevo lá de baixo, com barro na bota.

Yancey se descreve como um piloto de corrida num mundo de carros sem motorista. Alguém que sabia dar boas indicações de caminho na era do Google Maps. São habilidades que fazem parte de quem ele é, e ele sente o lugar delas encolher à medida que as miudezas da vida migram do mundo das pessoas para o mundo das máquinas.

Conheço essa sensação por dentro do jaleco. Levei anos aprendendo a escutar o que o paciente não diz. A reparar na mão que aperta a alça da bolsa quando a palavra insulina aparece. A suspeitar que uma glicada teimosa, às vezes, é um casamento que acabou. Nada disso cabe num prontuário. E desconfio que esse saber lento, artesanal, que só se aprende errando em gente de verdade, não vai sumir por ter deixado de importar. Vai sumir por ter deixado de ser remunerado.

Na semana passada, no ambulatório do SUS, uma senhora me perguntou, meio sem jeito, se podia “perguntar pro celular” em vez de voltar na próxima consulta. A passagem do ônibus estava cara, explicou, e o celular respondia de graça.

Eu disse que podia, sim. Mas que voltasse. (Como vou dizer que não, se muitos pacientes não tem dinheiro para comprar as passagens de ônibus para o centro para comprar as pequenas baterias que alimentam seus glicosímetros?).

Depois fiquei pensando que a pergunta dela não era sobre tecnologia. Era sobre a passagem. E o celular responde de graça, por enquanto.


Na década passada repetíamos que, se o serviço é gratuito, o produto é você. Yancey atualiza a frase: agora somos também a matéria-prima. Tudo o que escrevemos, fotografamos, conversamos e aprendemos em público virou ração para máquinas treinadas a produzir versões de nós mesmos. Só que sempre acordadas, sempre disponíveis, e com mensalidade.

Os ingleses têm nome para isso, embora o tenham cunhado para outra coisa. Chamaram de enclosure, o cercamento dos campos: o momento em que os pastos de uso comum foram cercados, e os camponeses que viviam deles passaram a pagar pelo que antes era de todos. A história não se repete, dizem, mas rima. Desta vez a cerca é de silício, e o pasto é a linguagem.

Yancey cita um matemático que passou vinte e quatro anos às voltas com um problema, milhares de horas de um prazer solitário e teimoso, até ler que uma máquina da OpenAI teria proposto a solução. Ele conta que ficou triste de um jeito distante, como quem descobre que uma antiga namorada morreu num acidente de carro.

Sei bem que luto esquisito é esse, e ele tem pouco a ver com inveja da máquina. Tem a ver com o caminho, que perde o valor quando alguém chega ao cume de helicóptero. Quem corre longas distâncias entende isso no corpo: ninguém corre uma ultramaratona para chegar ao quilômetro cem. Se o objetivo fosse chegar, iria de carro.

Em Yancey, esse luto aparece como perda de confiança. Como tudo ficou fácil de produzir e difícil de verificar, ele passou a duvidar antes de compartilhar. Ficou mais fechado, mais desconfiado. Segurou o próprio texto por mais de um mês, perguntando-se para que somar ao ruído quando tão pouca coisa soa honesta.

Entendo o recuo, mas discordo do remédio. Contra o ruído, eu receito assinatura. Um nome próprio, uma cidade, um rosto, uma história que pode ser conferida na padaria da esquina. Num mundo em que qualquer um gera qualquer coisa, a moeda que sobra é a confiança, e confiança não se gera. Tece-se, devagar, nó por nó, como rede de pesca, entre gente que se conhece.

Yancey teme uma tragédia dos comuns: quando o ritmo do que se publica seguir o ritmo do que se pode gerar, talvez descubramos que dá para dizer tudo, e que ninguém mais quer ouvir. A atenção e a crença seriam as próximas vítimas. O medo é legítimo. Mas vale lembrar que Elinor Ostrom ganhou o Nobel de Economia mostrando que essa tragédia não é destino. Pescadores, pastores e irrigadores do mundo inteiro cuidam há séculos do que é de todos, sem dono e sem ninguém mandando de cima, quando têm regras próprias, olho uns nos outros e motivo para confiar. O comum só vira tragédia quando a gente esquece que sabe cuidar dele.


Fala-se da inteligência artificial como de uma tempestade no horizonte: inevitável, indiferente, inapelável. Yancey desmonta a metáfora com uma observação simples. Isso não é o clima. São decisões, tomadas por um punhado de pessoas, sobre o que construir, quando lançar e quanto risco correr em nome de todos nós.

Tempestade não tem conselho de acionistas. Chuva não faz rodada de investimento.

Ele lembra que o matemático Terence Tao, numa palestra recente, se espantou com a nossa disposição de mudar tudo sem fazer ideia do que vem depois, num ritmo que chamou de insano e que, segundo ele, não tem razão nenhuma para ser tão rápido. Eu, que receito paciência como quem receita metformina, assino embaixo. Nenhum organismo aguenta tratamento de choque como regime permanente. Nenhuma sociedade, tampouco.

Por trás de tudo, diz Yancey, acena a promessa da inteligência artificial geral, uma maçã que oferece o conhecimento total. E ele pergunta: depois da primeira mordida, dá para voltar ao jardim?

Aqui me separo dele, com carinho. Yancey diz que abriria mão da IA sem pensar duas vezes, para voltar a como as coisas eram. Eu não volto. A máquina não me seduziu; acontece que o jardim de antes também tinha muro. Era o mundo em que a senhora do ambulatório não tinha a quem perguntar entre uma consulta e outra. Não quero voltar ao Éden. Quero plantar outro jardim, de cerca baixa e portão aberto, onde a ferramenta não pertença a quem chegou primeiro.

Os luditas quebravam teares para frear a mudança e passaram à história como inimigos do progresso, o que é uma injustiça. Eles sabiam, antes de quase todo mundo, que o problema estava menos no tear do que em quem era dono dele e para quem ele trabalhava. Yancey observa que os luditas de hoje carregam uma fábrica no bolso, que lhes facilita a vida e espalha suas ideias. Dá para combater a maquinaria no trabalho e aproveitá-la em casa?

Dá, se a gente trocar a pergunta. Nos anos setenta, Ivan Illich separou as ferramentas em dois tipos. As conviviais ampliam a autonomia de quem as usa: a bicicleta, a enxada, a biblioteca pública. As outras, passado certo limiar, nos tornam dependentes, incapazes de viver sem elas, e acabam trabalhando para si mesmas. A pergunta, então, não é se a inteligência artificial é boa ou má. É se ela é convivial. Se me deixa mais capaz ou mais dependente. Se é minha, nossa, ou de alguém que me aluga o ombro onde eu choro.

Sou, desde sempre, um anarquista cordial. Cordial no sentido de Sérgio Buarque, o que vem do coração, com uma diferença: o homem cordial dele usava o coração para contornar a regra em favor dos seus; eu quero usá-lo para reescrevê-la em favor de todos. Não quebro tear nenhum; quebro, no máximo, protocolo. Mas desconfio de toda autoridade que não se explica, e uma tecnologia que reorganiza a vida de bilhões de pessoas sem pedir licença a nenhuma delas é exatamente isso.


Então, qual é a minha responsabilidade? Boicotar? Contratar um programador de carne e osso mesmo quando o agente sai mais barato? Yancey faz essas perguntas e não finge ter as respostas. Eu também não tenho. Tenho regras de bolso, em parte roubadas dele, em parte cultivadas aqui.

Não uso a máquina no lugar de uma relação humana. Cuido do que entrego a ela e de onde a deixo entrar. E faço jejum. Como endocrinologista, receito jejum com cautela, mas este eu receito sem: um dia por semana sem conversar com modelo nenhum, com espaço para os meus pensamentos e para as pessoas que moram comigo.

Antes de abrir uma conversa com Cla ou Lúmina, me faço quatro perguntas. As três primeiras são de Yancey; a quarta é de Illich.

Estou usando a máquina para fugir de uma conversa?

Para entregar a ela uma decisão que é minha?

Para pular algo que seria mais bonito eu aprender sozinho?

Isso me deixa mais capaz ou mais dependente?

Se for logística, sigo em frente. Se cair em qualquer uma das quatro, paro.

Regras pessoais não resolvem o problema maior, e Yancey tem a honestidade de admitir. Usar essas ferramentas não significa ter escolhido o mundo que vem com elas. E quem vai viver essa travessia não tem, nem de longe, o mesmo poder de moldá-la. A senhora do ambulatório não estava na sala onde se decidiu nada disso. Eu também não.


T. S. Eliot escreveu que o mundo acaba não com um estrondo, mas com um gemido. Yancey arrisca que este vai acabar com um retorno sobre o investimento. É o que esperam, ao menos, os investidores.

Eu ofereço uma terceira hipótese, a do alquimista: mundos acabam o tempo todo, e o que nasce no lugar depende do que fazemos com as mãos enquanto o velho desaba.

Hoje, durante o almoço e antes de fechar este texto, liguei para um amigo que eu não ouvia fazia meses. Não tinha assunto nem pauta. Falamos quarenta minutos sem chegar a lugar nenhum, que é o melhor lugar aonde uma conversa pode chegar. Ninguém anotou coisa alguma. Não ficou resumo, registro ou próximo passo. Foi a coisa mais ineficiente que fiz na semana.

Da próxima vez, quem liga é ele.

Rafael Reinehr