O Quintessencial

Todo mundo mora num poço

Era cedo, o café ainda fumegava, e o polegar fazia o que os polegares fazem de manhã: descia. Parou num vídeo curto. Uma moça de voz serena dizia que não se pode explicar o oceano a um sapo que só conhece o poço. Para ele, aquilo é o mundo inteiro. Vinha depois a moral de sempre: cuide de onde deposita sua energia, gente rasa não alcança gente funda, não discuta o mar com quem mora no buraco.

Achei bonito. Achei verdadeiro. E achei, lá no fundo, um pouco perigoso. Desci aos comentários, que é onde as redes escondem o que têm de melhor e de pior. Naquela manhã, deu o melhor: gente sem pretensão de autor fazendo o que os filósofos fazem quando estão em forma, que é discordar com carinho.

A imagem é velha. Tem uns 2.300 anos e nasceu na China, no livro de Zhuangzi, o mais anárquico dos sábios taoístas. No capítulo “As Águas de Outono”, o deus de um rio, inchado pelas cheias da estação, desce satisfeito, certo de que toda a beleza do mundo cabe entre as suas margens. Até chegar ao mar. Olha para o leste, não vê fim, e suspira. O espírito do Oceano do Norte então lhe diz, mais ou menos assim: não se fala do mar a um sapo de poço, porque ele está preso ao seu espaço; não se fala do gelo a um inseto de verão, porque ele está preso à sua estação; não se fala do caminho a um letrado estreito, porque ele está preso à sua doutrina. E arremata: agora que você saiu das suas margens e viu o mar, conhece a própria pequenez, e já podemos conversar.

Repare em quem recebe a lição: o rio, não o sapo. Um rio cheio de si que acaba de descobrir que era pouco. A fábula nasceu como exercício de humildade, contada a quem se achava grande. No mesmo capítulo há outra cena que eu adoro: uma tartaruga do Mar do Leste tenta visitar o poço do sapo e, antes de conseguir enfiar a pata esquerda, já está com o joelho direito entalado. O oceano também não cabe em qualquer lugar.

O vídeo fez com a fábula o que a pressa costuma fazer com a sabedoria: virou-a do avesso. Onde havia um rio aprendendo a ser pequeno, ficou alguém se descobrindo oceano e apontando para os sapos. Como anarquista (cordial, mas anarquista), desconfio de toda pirâmide, inclusive das pirâmides de consciência. Sempre que um texto divide o mundo entre os que enxergam e os que não alcançam, convém perguntar quem fabricou a régua. Desconfio também da “ambição de futuro” como medida de gente. Tem sapo que não sonha com o mar porque é feliz no poço, e o sapo de Zhuangzi se gaba justamente disso: salta na borda, descansa nas frestas dos tijolos, é dono da sua água. Quem sou eu para diagnosticar a alegria alheia?

Alguém trouxe aos comentários uma frase atribuída a Einstein: tudo aquilo que o homem ignora não existe para ele, e por isso o universo de cada um se resume ao seu saber. É quase certo que Einstein nunca disse isso, como quase tudo que a internet põe na boca dele. A ironia é deliciosa, uma frase sobre os limites do saber morando num poço de atribuições erradas. Mas ela continua verdadeira, mesmo órfã. E, se é verdadeira, vale para mim. Meu universo também se resume ao que sei. Meu poço tem diploma pendurado na parede, o que não o deixa menor; só mais convencido. Todo poço, aliás, tem a mesma armadilha acústica: a gente fala, a voz bate na pedra e volta, e a gente jura que é o mundo concordando. Hoje esse eco tem algoritmo.

Dito isso, o vídeo acerta numa coisa que não quero perder: não adianta discutir o oceano. Discussão é a ferramenta errada para esse assunto. Ninguém sai de poço convencido por argumento; no máximo, sai irritado. E há um cansaço específico em tentar caber na expectativa de quem nos ama de dentro das paredes deles.

Uma moça, nos comentários, escreveu a frase mais honesta do dia. O chato de lidar com os sapos, disse ela, é a culpa por desejar mais, que acaba nos prendendo junto com eles só para não quebrar o que esperavam de nós; e ainda há os medos e frustrações que eles depositam em nós e que nem são nossos. Muito poço é feito disso. Cada tijolo é um “quem você pensa que é?”, assentado com amor, às vezes, mas assentado.

Aqui o anarquista e o cordial apertam as mãos. O anarquista lembra que ninguém tem escritura do seu corpo nem dos seus sonhos: lealdade não é obediência, e amar alguém não obriga a morar no poço dele. O cordial lembra que dá para sair sem cuspir na água, sem desprezar quem fica, sem transformar a própria partida numa sentença contra os outros. Limite é isso: uma borda que você escolhe, em vez de uma parede que escolheram por você.

Outra comentarista tocou no que, para mim, é o coração da coisa. Concordava que muita gente vive no raso porque é o que consegue suportar, e emendava: o oceano, de tão vasto e salgado, mataria o pobre sapinho acostumado à água doce da poça.

Aí falou direto com o endocrinologista. Passo os dias explicando sódio, água e hormônio. A pele do sapo é fina e permeável, quase uma mucosa; ele bebe por ela. Jogado no mar, a água de dentro corre para fora atrás do sal, e o bicho desidrata. Morre de sede no meio da maior quantidade de água do planeta. Não conheço imagem melhor para o que acontece quando despejamos nossa visão de mundo inteira, de uma vez, sobre alguém que não tem como absorvê-la. Chamamos de burrice o que é osmose.

Platão sabia disso à sua maneira. No mito da caverna, o prisioneiro que sai para a luz fica cego; precisa olhar primeiro as sombras, depois os reflexos na água, depois as estrelas, e só então o sol. Quando volta para contar aos outros, riem dele, e Platão desconfia que o matariam. A luz também tem sal. Mas há um detalhe na alegoria que sempre me incomodou: o prisioneiro não sai. É arrancado e arrastado à força pela subida íngreme. Platão, aristocrata, imaginou a libertação como arrasto. Eu desconfio de toda libertação que precisa de arrasto.

A natureza inventou outra coisa. O mesmo sol que cega o prisioneiro bate todos os dias sobre o mar e o faz subir em vapor. O sal fica para trás. A água sobe leve, vira nuvem, viaja e um dia cai, doce, em gotas, na medida exata, dentro do poço. Toda chuva é oceano destilado. O sapo nunca entendeu o mar e nunca vai entender, mas recebe o mar inteiro, aos pouquinhos, toda vez que chove. E quem cresceu no interior sabe o que acontece depois da chuva: o sapo canta.

É a operação mais antiga da alquimia: dissolver, evaporar, condensar. Os velhos alquimistas chamavam de destilação; os sapos chamam de noite boa. Talvez o nosso trabalho não seja explicar o oceano, nem desistir de quem está no poço, nem arrastar ninguém pela escarpa. Talvez seja virar chuva. Pegar o que se viu de vasto, deixar para trás o sal da arrogância e oferecer em gotas: numa conversa, num gesto, num jeito de viver que o outro possa beber pela pele.

E há sapos que, com tempo, aprendem o sal. Nos manguezais do Sudeste Asiático vive uma rã que tolera água salobra. Ela não ficou mais valente; ficou diferente por dentro. Acumula ureia no sangue até que o seu interior seja também um pouco mar, e aí o mar já não a seca. Ninguém a jogou no oceano. Foi adaptação, não arremesso. Toda transformação que presta acontece assim: de dentro para fora, devagar, na velocidade do corpo.

Guardei para o fim o comentário que me fez esquecer o café. Uma moça contou que tinha dito ao namorado que, pensando no que era, chegara à conclusão de que era “uma pessoa com dor”. Ele respondeu: você não é dor, é só tudo que você conhece.

Li duas vezes. É a mesma fábula, virada para dentro. O poço mais fundo que existe não é o dos outros; é a dor que a gente confunde com identidade. O sapo acha que o poço é o mundo; a gente acha que a ferida é o eu. E o namorado, sem saber, fez o que o Oceano do Norte fez com o rio: não discutiu, não explicou, não arrastou. Só abriu uma fresta na palavra “é”. A dor é o que você conhece. Até agora.

Nesse “até agora” cabe um oceano.

Um último comentarista, que assinava com três letras, escreveu que na vida a gente sai de várias cavernas, e que aprender isso resume, de modo singelo, o substantivo “vivo”. Acho que ele acertou sem querer: ali, vivo deixa de ser estado e vira ofício. Estar vivo é sair de um poço, cair noutro maior, estranhar a água, aprender um pouco de sal, sentir saudade da chuva e sair de novo.

Então, sim: não tente explicar o oceano ao sapo. Mas não porque ele seja menos. Porque você também mora num poço, com diploma, com algoritmo, com dor, com eco, e o mar não pertence a ninguém. O que dá para fazer é chover.

E isso não é sobre sapos. Nunca foi.

Rafael Reinehr

Inspiração: