O Quintessencial

O Quintessencial #033 · A Travessia da Islândia e Semeadura do Arqueologia do Impossível

Edição #033 – Segunda-feira, dia 31 do mês de agosto do ano de 2026
Kin 5 – Serpente Harmônica Vermelha – “Potencializo com o fim de sobreviver, Comandando o instinto, Selo o armazém da força-vital, Com o tom harmônico da radiação, Eu sou guiado pelo poder do espaço”
Um boletim do Cada Vez Melhor, por Rafael Reinehr


Playlist da Semana

Toque para acompanhar a leitura de hoje:

PS: Gratidão ao amigo Fabiano Carvalho pelo presente que é esta playlist!

Carta do Editor

Ufa! Cansei! Ainda estou aqui decidindo se cansei mais dos meus 15 dias de férias e da minha eurotrip com minha esposa ou dos meus 5 dias e meio atravessando a Islândia no lombo de uma magrela furiosa, descendo o rio Pjorsa nuns botes irados e correndo e trilhando montanha acima e abaixo nas paisagens mais míticas e incríveis que meus olhos já viram. Chorei umas 10 vezes ao longo da trajetória – nenhuma delas de tristeza – mas por assombro, por gratidão, por encantamento e maravilhamento frente ao indizível e à oportunidade que a vida estava me dando. Choro novamente agora, enquanto escrevo estas palavras, em um trem a mais de 300 por hora indo de Granada a Madri, onde pegaremos, Luana e eu, nosso vôo de volta ao Brasil.

(…)

(…)
E, quis assim a sequência de eventos que se sucederam, que eu continuasse a escrever somente agora, às 8 e pouco da manhã de segunda-feira, depois de 12 horas encaixotados na classe econômica de um vôo da AirEuropa que atrasou cerca de 2 horas pois precisou descarregar 4 toneladas de peso para poder decolar em Madri, e depois atrasou mais 1 horas pois precisou ficar circulando em espaço aéreo próximo a São José dos Campos até finalmente poder pousar em Guarulhos.

Mais uma vez – a esta altura, cinquentenário recente que sou – já aprendi que conseguimos saborear mais as coisas quando o andor da vida não é demasiado Presto. Prestíssimo*, muitas vezes! Prefiro mais um Allegretto ou até mesmo um Andantino. E preciso cultivar mais, muito mais Adagios, Larghettos e até Graves em minha vida se quiser, por exemplo, me livrar de um zumbido no ouvido esquerdo que me acompanha há pouco mais de 2 anos e meio.

O que seria para mim um “ritmo ideal”? Uma viagem direta, nenhuma conexão. Transporte até o hotel. Descansar um pouco. Banho. Fazer amor. Novo banho. Um passeio por um local encantador. Um generoso café, com muita, muita calma. Um livro e um computador, além da minha caderneta de anotações e meu diário de evolução pessoal. Refletir e ponderar sobre o que o dia trouxe até aqui e, sem dúvida nenhum, tempo para criação. Nos dias que não crio, parece que ficou faltando algo de significativo. E muitos dias tem sido de Vivace pra cima, só descascando os pepinos que a vida necessita para funcionar.

Mas esse Editorial já está ficando muito longo e muito “nhé”. Hoje, além da felicidade de retornar ao Quintessencial – nova logomarca, novo cabeçalho, novo ímpeto,, quero lhes contar (as duas vírgulas aí atrás são intencionais: senti falta de uma pausa mais longa ali que não fosse um ponto e vírgula) um pouco sobre minha travessia da Islândia e também sobre a Cerimônia da Primeira Semeadura do Arqueologia do Impossível, meu novo livro de contos. Sim, pois por aqui não lançamos livros. Semeamos possibilidades.

Bora saber mais sobre isso e outros quetais?

Vamos à carga!

Muy cordialmente, do seu anarquista mais mimoso,

Rafael Reinehr


A Travessia da Islândia de Costa a Costa: de Blönduós a Skógafoss


“Não uma fuga da vida comum. Muito pelo contrário. Quero voltar para ela mais vivo.” – Rafael Reinehr

Quero o inferno completo

O que 422 quilômetros atravessando a Islândia me ensinaram sobre sofrimento, humildade, amizade — e sobre as coisas que só encontramos quando já não temos para onde fugir de nós mesmos

Há ideias que, quando surgem, deveriam receber uma noite de sono, uma segunda opinião e talvez uma pequena intervenção familiar.

Atravessar a Islândia de norte a sul, movido pelas próprias pernas, provavelmente era uma delas.

Mas eu me inscrevi.

Aos 50 anos.

Porque aparentemente chegar aos cinquenta com quatro filhos, uma esposa, consultório, pacientes, livros para escrever, projetos para tocar, textos atrasados, aulas, palestras, ideias suficientes para ocupar três encarnações e uma vocação quase patológica para inventar coisas ainda não era complicado o bastante.

Faltava atravessar a Islândia.

De bicicleta.

De packraft.

A pé.

Algumas pessoas compram uma motocicleta quando chegam aos cinquenta.

Outras começam a jogar padel.

Eu decidi descobrir quantas pedras vulcânicas cabem entre a dignidade de um homem e seu colapso emocional.

Cada um lida com a meia-idade como pode.


Meu nome é Rafael Reinehr.

Sou médico endocrinologista, embora goste de acrescentar o qualificativo improvável de Médico Zen.

Sou escritor.

Marido da Luana.

Pai do Benjamin, do Conrado, do Davi e da Maya.

Também sou, dependendo do dia e da quantidade de café disponível, permacultor, instrutor de meditação, praticante de yoga, alquimista de possibilidades e anarquista cordial — uma combinação suficientemente contraditória para justificar boa parte das decisões que tomei até aqui.

Minha vida é cheia.

Maravilhosamente cheia.

Às vezes excessivamente cheia.

Há sempre alguém esperando uma resposta, um texto que precisa nascer, um paciente para atender, uma ideia pedindo passagem, uma criança precisando do pai, uma esposa querendo — com toda a razão — encontrar o marido por baixo da montanha de projetos.

Tenho uma relação curiosa com essa abundância.

Eu a amo.

Mas também sei o preço que ela cobra.

A mente raramente fica vazia.

Talvez por isso eu procure, de tempos em tempos, lugares onde a vida se torna brutalmente simples.

Uma montanha.

Uma trilha.

Uma corrida.

Uma bicicleta.

Um caminho longo demais para que nossos personagens consigam nos acompanhar.

Porque existe um momento, depois de muitas horas de esforço, em que já não importa muito quem você diz que é.

O médico desaparece.

O escritor desaparece.

Os títulos desaparecem.

As tarefas desaparecem.

O currículo desaparece.

O número de seguidores desaparece.

A caixa de e-mails desaparece.

O sujeito que tinha opinião sobre tudo, surpreendentemente, também desaparece.

Resta um animal humano tentando colocar uma perna na frente da outra.

E talvez exista uma espécie de verdade nesse lugar.


A aventura começou no norte da Islândia, na praia negra de Blönduós, onde o rio Blanda encontra o oceano.

Diante de nós havia uma ilha inteira.

Algo em torno de 422 quilômetros até o Atlântico na costa sul.

Quase seis mil metros acumulados de subida.

Planícies.

Rios.

Desertos vulcânicos.

Glaciares.

Montanhas.

E aquela característica peculiar da geografia islandesa de parecer ter sido desenhada durante uma reunião particularmente criativa entre Tolkien, George R. R. Martin e algum deus nórdico de péssimo humor.

Nos primeiros quilômetros, pedalávamos por um mundo quase gentil.

Campos.

Cavalos islandeses.

Lagos imóveis como espelhos.

Céus imensos.

Uma Islândia quase publicitária.

Era bonito.

Era elegante.

Era civilizado.

Naturalmente, era uma armadilha.

Logo entramos nas Highlands.

E a Islândia começou a retirar seus disfarces.

A terra ficou mais áspera.

O horizonte mais vazio.

As estradas se transformaram em longas extensões de pedras, areia vulcânica e aquelas ondulações transversais chamadas washboard que fazem uma bicicleta inteira vibrar como se tivesse desenvolvido uma crise convulsiva.

O guidão treme.

As mãos formigam.

Os dentes parecem querer abandonar a boca.

A lombar protocola formalmente uma reclamação.

E você continua pedalando.

Diante de nós surgiam Hofsjökull e Langjökull, enormes massas de gelo delimitando um mundo mineral que às vezes parecia menos uma paisagem terrestre e mais algum planeta no qual nossa espécie ainda não havia sido oficialmente autorizada a entrar.

E foi por ali que comecei a perceber uma coisa.

A Islândia não estava interessada em nos impressionar.

Ela simplesmente estava ali.

Nós é que precisávamos nos adaptar.


Esse talvez seja um dos primeiros ensinamentos das montanhas.

Na vida cotidiana conseguimos moldar uma parte razoável do mundo ao nosso redor.

Ajustamos a temperatura.

Pedimos comida.

Chamamos um carro.

Mudamos a agenda.

Bloqueamos uma pessoa.

Trocamos de canal.

Fechamos a janela.

Na natureza selvagem, a negociação é outra.

O vento não aceita argumentos.

A chuva não remarca horário.

A inclinação da montanha não diminui porque você dormiu mal.

Uma pedra não demonstra empatia pela sua lombar.

A areia vulcânica não se sensibiliza com o fato de você ser endocrinologista.

E um glaciar, posso assegurar, é completamente indiferente ao número de diplomas pendurados na sua parede.

Existe algo maravilhosamente democrático nisso.

A natureza distribui humildade sem solicitar currículo.


No terceiro dia deixamos por algumas horas as bicicletas e entramos no Þjórsá, o rio mais longo da Islândia, em pequenos packrafts.

É difícil explicar o prazer infantil de estar no meio de uma expedição gigantesca e subitamente perceber que agora o plano é:

— Muito bem. Guardem as bicicletas. Vamos descer um rio.

Naturalmente.

Porque pedalar pela Islândia estava ficando monótono.

Havia corredeiras, água gelada, pedras, instruções de segurança e aquele pequeno diálogo interior que surge quando alguém explica o que fazer caso seu barco vire.

Você ouve atentamente.

Assente com a cabeça.

E pensa:

excelente, meu objetivo principal será não precisar utilizar nenhuma dessas informações.

Depois voltamos às bicicletas.

E seguimos.

Quilômetro após quilômetro.

Subida após subida.

Pedra após pedra.

A essa altura os dias começaram a perder suas fronteiras.

A vida passou a ser organizada por coisas muito elementares:

acordar.

comer.

arrumar equipamento.

andar.

pedalar.

comer.

continuar.

chegar.

tirar roupas molhadas.

comer novamente.

tentar fazer com que alguma coisa seque.

dormir.

repetir.

Civilização reduzida ao essencial.

E existe um curioso bem-estar nisso.

Quando sobreviver confortavelmente às próximas horas se torna sua principal tarefa, boa parte das angústias sofisticadas desaparece por falta de espaço.


Então chegou o quarto dia.

Ah, o quarto dia.

Há acontecimentos que merecem datas históricas.

O descobrimento do Brasil.

A queda da Bastilha.

O primeiro homem na Lua.

E aquele dia em que aproximadamente 105 quilômetros de Islândia decidiram explicar para mim o verdadeiro significado da palavra suficiente.

O problema é que suficiente, aparentemente, não significava parar.

Significava continuar.

Foram quase dez horas de bicicleta.

Longas subidas.

Estradas vulcânicas.

Pedras.

Areia.

Mais pedras.

Mais areia.

Neblina.

Cansaço.

E aquela perversidade psicológica particularmente requintada da Rat Race de, em determinados momentos, nos fazer passar perto do lugar onde dormiríamos…

…para depois mandar a rota para longe dele novamente.

Você enxerga o alojamento.

Seu cérebro já produz dopamina.

Sua alma coloca o pijama.

Seu corpo começa a imaginar comida.

E então o GPS diz:

vire à esquerda. Mais quinze quilômetros.

Foi provavelmente ali que percebi que os organizadores da Rat Race não trabalhavam apenas com esportes de aventura.

Trabalhavam também com psicologia experimental.


Em algum momento a névoa nos engoliu.

O mundo encolheu.

Já não existiam montanhas.

Não existia horizonte.

Não existia Islândia.

Existiam apenas alguns metros de estrada diante da bicicleta, o GPS, o som dos pneus e a determinação bastante questionável de continuar seguindo uma linha eletrônica em uma tela.

Há uma metáfora excessivamente óbvia aí.

Então, naturalmente, como escritor, sou obrigado a utilizá-la.

Nem sempre precisamos enxergar o destino.

Às vezes precisamos enxergar apenas os próximos dez metros.

Talvez cinco.

Talvez apenas o próximo passo.

Esse é um dos grandes equívocos que cometemos quando imaginamos jornadas difíceis.

Pensamos que precisamos possuir força suficiente para fazer 422 quilômetros.

Não precisamos.

Precisamos ter força para fazer o próximo quilômetro.

Depois negociamos novamente.

A vida inteira talvez funcione mais ou menos assim.


E então veio o território que permanecerá para sempre em uma categoria especial da minha memória:

Laugavegur.

Areia.

Pedregulhos.

Areia.

Pedregulhos.

Areia.

Pedregulhos.

Em determinado momento comecei a suspeitar de que os islandeses possuíam uma fábrica secreta produzindo pedras especificamente para colocar na minha frente.

Não acabavam.

Era quase admirável.

Você ultrapassava uma colina acreditando que finalmente encontraria terreno melhor.

E encontrava…

mais pedras.

Atravessava outro trecho.

Mais areia.

Subia.

Mais pedras.

Eu, que cheguei à Islândia razoavelmente convencido da minha resistência física e mental, comecei a receber uma aula prática de um tema sobre o qual teoricamente já sabia bastante:

humildade.

O sofrimento ensina humildade.

Não necessariamente porque sofrer seja bom.

Não acredito nessa romantização.

Dor não é automaticamente sabedoria.

Há sofrimento inútil, injusto e absurdo demais no mundo para que o transformemos em fetiche.

Mas existe um tipo de dificuldade voluntariamente escolhida que nos coloca diante das nossas fronteiras.

E fronteiras são interessantes.

Porque até encontrá-las, podemos imaginar que somos infinitos.


No quinto grande dia da travessia, trocamos definitivamente as bicicletas pelas pernas.

Diante de nós estava Fimmvörðuháls.

Cerca de 45 quilômetros atravessando uma das paisagens mais extraordinárias que já vi.

Saímos pelos vales verdes de Þórsmörk, um lugar tão improvável que parece exigir uma trilha sonora.

Cânions.

Musgo.

Montanhas.

Rios.

E então começamos a subir.

E subir.

E subir.

Pouco a pouco o verde desapareceu.

A paisagem tornou-se negra e branca.

Cinza vulcânica.

Neve.

Gelo.

Céu.

Caminhávamos próximos de Magni e Móði, as crateras surgidas na erupção de 2010 do Eyjafjallajökull — aquele vulcão cujo nome provavelmente provocou mais sofrimento nos apresentadores de telejornais do que sua própria erupção.

Em algum ponto, o corpo já estava profundamente cansado.

Mas os olhos continuavam despertos.

É uma experiência estranha.

Você está sofrendo e maravilhado ao mesmo tempo.

Deseja que aquilo termine.

E deseja que não termine nunca.

Talvez esse seja o território secreto de algumas das experiências mais transformadoras da vida:

quando beleza e dificuldade deixam de ser opostos.


Do alto, finalmente apareceu o Atlântico.

A costa sul.

O lugar para o qual estávamos nos movendo desde que deixamos o outro oceano para trás.

Há momentos em que enxergar o destino transforma retrospectivamente tudo aquilo que veio antes.

Cada pedalada.

Cada pedra.

Cada subida.

Cada manhã em que o corpo perguntou você tem certeza?

Cada momento em que a resposta foi:

Não. Mas vamos assim mesmo.

Depois veio a descida.

Mais de mil metros verticais rumo a Skógar.

Cachoeiras aparecendo uma depois da outra.

E finalmente Skógafoss, imensa, trovejante, absurda.

Depois de tantos dias de movimento, aquilo produzia uma sensação muito difícil de explicar.

Você está exausto.

Sujo.

Dolorido.

Provavelmente cheirando como uma experiência científica que fracassou.

E profundamente feliz.

No dia seguinte restaria apenas um último trecho, quase um cortejo de encerramento, até a areia negra de Sólheimasandur, perto da carcaça daquele DC-3 abandonado que parece ter sido deixado ali especificamente para fotógrafos e reflexões existenciais.

E então terminamos.

Do outro lado da Islândia.


Mas dizer que atravessamos a Islândia é apenas geograficamente correto.

Porque alguma outra coisa acontece durante uma experiência dessas.

Vinte e cinco pessoas chegaram como desconhecidas.

Brasileiros, britânicos, alemães, portugueses, americanos.

Histórias diferentes.

Profissões diferentes.

Corpos diferentes.

Medos diferentes.

Em poucos dias, porém, desaparece uma quantidade impressionante de cerimônia social.

É difícil manter muita pose quando todos estão tentando colocar meias ainda úmidas às seis da manhã.

Não há muito espaço para status quando alguém precisa da sua ajuda para carregar algo.

As máscaras sociais têm baixa resistência à chuva islandesa.

E aquilo que sobra é bonito.

Alguém espera por você.

Alguém divide comida.

Alguém oferece ajuda.

Alguém diz uma bobagem no momento exato em que você precisava rir.

Alguém olha para sua cara e percebe que talvez naquele momento você não precise de conselho algum — só de companhia.

Nós gostamos de celebrar histórias de superação como narrativas individuais.

Eu consegui.

Eu venci.

Eu fui forte.

Mas quanto mais envelheço, menos acredito nessa mitologia.

Ninguém atravessa nada importante sozinho.

Não atravessamos países.

Não construímos famílias.

Não criamos livros.

Não fazemos ciência.

Não sobrevivemos às grandes dores.

Não construímos uma vida boa.

Sozinhos.

Somos criaturas de travessia coletiva.

Fluímos uns com os outros.


E havia ainda a equipe da Rat Race.

Enquanto nós protagonizávamos nossos pequenos épicos particulares, havia um exército silencioso fazendo comida, transportando equipamentos, consertando bicicletas, organizando rios, preparando postos, cuidando da segurança, fotografando, orientando, medicando, encorajando e provavelmente dormindo muito menos do que qualquer pessoa sensata deveria dormir.

Tom.

Thor.

Mike.

Seb.

Rob.

Lauren.

Ben.

Dovey.

Leo.

Abbi.

E todos os outros.

Eles estavam em toda parte.

Antes de nós.

Depois de nós.

Ao lado de nós.

Com café.

Com comida.

Com ferramentas.

Com uma palavra.

Com aquela desconcertante tranquilidade de quem olha para você completamente destruído e parece dizer:

— Sim, está tudo certo. Isso faz parte.

No começo, confesso, interpretei essa serenidade de outra forma.

Nos primeiros dois dias comecei a odiá-los.

Depois passei apenas a desgostar deles.

Mais tarde, para meu próprio espanto, comecei a gostar.

E ao final…

bem.

Ao final aconteceu algo ainda mais perturbador.

Foi por isso que, quando chegou o momento de agradecer àquela turma de magníficos lunáticos, eu precisava dizer algumas palavras.

E disse mais ou menos assim:


Do Ódio ao Amor — Obrigado, Rat Race

Antes de mais nada, em nome de todos nós, acho que preciso dizer algo muito importante para toda a equipe da Rat Race.

Eu odiei vocês.

Não cada um de vocês individualmente, é claro.

Eu sou brasileiro. Somos um povo amigável. Não odiamos indivíduos.

Nós odiamos organizações.

E, depois dos primeiros dois dias do Iceland Coast to Coast, eu havia desenvolvido um ódio bastante pessoal e íntimo pela de vocês.

No final do terceiro dia, porém, algo estranho aconteceu.

Eu já não odiava mais vocês.

Eu apenas não gostava de vocês.

Um progresso.

Então veio o quarto dia.

Cento e cinco quilômetros do que eu só consigo descrever como um experimento cuidadosamente elaborado para descobrir exatamente quanto sofrimento um ser humano consegue suportar antes de começar a negociar diretamente com Deus.

E, de alguma forma, inexplicavelmente, em algum ponto entre a exaustão, a dor, o frio, o cascalho interminável e o desaparecimento gradual da minha capacidade de tomar decisões racionais…

Eu comecei a gostar de vocês.

Fiquei preocupado.

E agora, depois do quinto dia…

Tenho uma notícia perturbadora.

Acho que amo vocês.

O que significa que, aparentemente, a Rat Race desenvolveu o mais elaborado programa de síndrome de Estocolmo da indústria de aventura.

E o mais estranho é o seguinte:

Se vocês me levassem de volta ao alojamento antes do quarto dia — antes que eu soubesse o que estava por vir — e me oferecessem a possibilidade de parar por ali…

Eu corajosamente responderia:

“Não. Mandem tudo. Eu quero o inferno completo.”

Porque, aparentemente, o sofrimento não apenas constrói caráter.

Ele também causa perda de memória.

E então, é claro, veio Laugavegur.

Aqueles trechos intermináveis de areia e pedras soltas.

E mais areia.

E mais pedras.

E então, quando você pensava que certamente não poderia haver mais…

mais areia e pedras do caralho.

Em algum ponto daquela trilha, descobri algo importante sobre mim mesmo.

Eu não sou nem de longe tão durão quanto imaginava.

E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de uma aventura como esta.

O sofrimento ensina humildade.

Uma montanha não está nem aí para o seu currículo.

O vento não se importa com o quanto você achava que estava em forma.

E o clima islandês definitivamente está cagando para os seus planos.

E, depois de quilômetros suficientes, subidas suficientes, frio suficiente, areia suficiente e pedras suficientes…

todas as camadas desnecessárias começam a cair.

Até que, finalmente, resta algo muito simples:

um ser humano,

um corpo cansado,

uma mente teimosa,

e mais um passo.

E depois outro.

E outro.

Até que, de alguma maneira…

você chega.

Mas nenhum de nós chegou até aqui sozinho.

E é aqui que as piadas param por um instante.

Acho que falo por todos quando digo o quanto somos profundamente gratos a toda a equipe da Rat Race.

Pelo profissionalismo.

Pela paciência.

Pela competência.

Pela comida, pela logística, pelo incentivo, pelos sorrisos, pela segurança, pelo trabalho interminável acontecendo nos bastidores e que, provavelmente, nós sequer percebemos.

Por estarem lá quando estávamos fortes.

E, mais importante ainda, por estarem lá quando não estávamos.

Vocês criaram algo muito maior do que uma rota atravessando a Islândia.

Vocês criaram as condições para que um grupo de estranhos pudesse sofrer junto, rir junto, xingar junto, ajudar uns aos outros, mostrar suas vulnerabilidades juntos…

e, no fim, transformar-se em algo parecido com uma pequena família.

Uma família ligeiramente traumatizada.

Com as pernas doloridas.

E uma higiene bastante questionável.

Mas, ainda assim, uma família.

Daqui a muitos anos, provavelmente não vou me lembrar de cada quilômetro.

Não vou me lembrar de cada subida.

Talvez eu até perdoe Laugavegur.

Pensando bem, não.

Foda-se Laugavegur.

Mas eu vou me lembrar das pessoas.

Vou me lembrar de quem esperou.

De quem encorajou outra pessoa.

De quem ofereceu comida, água, uma piada, uma mão ou simplesmente disse:

“Vamos. A gente consegue.”

Porque aventuras como esta nunca são, de verdade, sobre atravessar um país.

Elas são sobre atravessar alguma coisa dentro de nós mesmos.

Nós viemos até aqui acreditando que o desafio era atravessar a Islândia de uma costa à outra.

Mas, em algum ponto do caminho, a Islândia silenciosamente fez a cada um de nós uma pergunta diferente:

“Quem é você quando as coisas ficam difíceis?”

E, durante cinco dias extraordinários, tivemos o privilégio de descobrir.

Então, para toda a equipe da Rat Race:

Obrigado pelo sofrimento.

Obrigado pela loucura.

Obrigado pela beleza.

Obrigado por nos mostrarem paisagens que jamais esqueceremos e partes de nós mesmos que talvez nunca tivéssemos descoberto de outra maneira.

Posso prometer uma coisa com absoluta certeza:

Vocês estarão em alguns dos meus piores pesadelos pelo resto da minha vida.

E, estranhamente…

digo isso com um carinho enorme.

Então, um brinde à Islândia.

Um brinde a cada pessoa que conseguiu chegar até aqui.

Um brinde àqueles que nos ajudaram quando nós mesmos não tínhamos certeza de que conseguiríamos.

E um brinde aos magníficos lunáticos da Rat Race que olharam para a Islândia e, de alguma maneira, pensaram:

“Sabe o que tornaria este lugar ainda melhor? Fazer um bando de gente atravessar essa porra inteira.”

Nós odiamos vocês.

Depois, não gostamos de vocês.

Depois, gostamos.

E agora…

Deus nos ajude…

nós amamos vocês.

Obrigado.

E, por favor…

me deem pelo menos alguns meses antes de me mandarem o link para a próxima.


Depois das risadas, dos abraços e daquilo que poderia muito bem ter sido uma sessão coletiva de síndrome de Estocolmo, a aventura terminou.

Ou melhor:

terminou a parte simples.

Porque atravessar a Islândia é relativamente fácil.

Você só precisa continuar andando.

Difícil é voltar.


Na noite de 15 de agosto deixei Reykjavík.

No dia seguinte, em Londres, reencontrei Luana.

E talvez não exista maneira melhor de perceber o tamanho de uma ausência do que reencontrar um abraço conhecido.

Depois de dias cercado por vento, montanhas, pedras, bicicletas, equipamentos e homens e mulheres cheirando a aventura — que é uma expressão poeticamente mais aceitável para certas realidades olfativas — comecei com ela outra viagem.

Uma Eurotrip (assunto para uma próxima edição!)

Outro ritmo.

Outra paisagem.

Outro tipo de presença.

E aquilo produziu um contraste curioso.

Poucas horas antes, minha vida cabia numa mochila e minha principal preocupação era continuar avançando.

Agora voltavam os aeroportos, as cidades, os restaurantes, as conversas, as mensagens, os compromissos.

A civilização me recebia novamente.

E, em algum lugar do telefone, provavelmente milhares de pequenas responsabilidades aguardavam pacientemente meu retorno.

Paciente.

Pai.

Marido.

Médico.

Escritor.

Professor.

Empreendedor de ideias.

Amigo.

Aquele sujeito que insiste em criar um projeto novo antes de concluir os sete anteriores.

Ou seja:

eu.


Mas talvez eu não fosse exatamente o mesmo.

Não gosto muito da narrativa de que precisamos viajar para “nos encontrar”.

Às vezes me parece que passamos tempo demais procurando um suposto eu verdadeiro escondido em algum lugar, como se nossa identidade fosse uma chave perdida atrás do sofá.

Talvez não haja nada para encontrar.

Talvez exista algo para descascar.

Camada após camada.

Até perceber o que permanece.

Quando estamos cansados demais para impressionar.

Quando não existe plateia.

Quando ninguém está contando quilômetros.

Quando a montanha não sabe nosso nome.

Quando não conseguimos mais sustentar a ficção de que controlamos o mundo.

O que sobra?

Essa pergunta me interessa.


Sou médico.

Passei uma parte importante da vida estudando como prolongar a existência humana e torná-la mais saudável.

Mas saúde não pode significar apenas evitar a morte.

Existe uma pergunta anterior:

para que desejamos estar vivos?

Queremos anos.

Naturalmente.

Mas queremos anos para preenchê-los com quê?

Segurança?

Conforto?

Experiência?

Amor?

Descoberta?

Serviço?

Criação?

Assombro?

Talvez longevidade sem vitalidade seja apenas uma forma particularmente longa de ausência.

Talvez viver bem exija também algumas ocasiões em que nos aproximamos voluntariamente das bordas.

Não necessariamente atravessando a Islândia.

Graças a Deus.

Há maneiras logisticamente mais simples de praticar presença.

Mas fazendo algo que ainda nos assuste um pouco.

Algo cujo resultado não esteja garantido.

Algo que nos retire da automatização.

Algo que nos obrigue a estar inteiros ali.


O mundo contemporâneo tornou-se excepcionalmente eficiente em eliminar desconfortos.

E isso é, em enorme medida, uma conquista maravilhosa.

Não sinto nostalgia por anestesia sem anestésico, noites congelantes ou mortalidade infantil.

Civilização é uma boa ideia.

Sou fã.

Mas talvez, no processo de eliminar sofrimentos desnecessários, estejamos eliminando também certas dificuldades necessárias.

A dificuldade de esperar.

A dificuldade de aprender lentamente.

A dificuldade de sustentar um compromisso.

A dificuldade de não abandonar alguma coisa porque deixou de ser agradável.

A dificuldade de permanecer diante do desconhecido.

A dificuldade de descobrir que nossa primeira resposta ao desconforto não precisa ser fugir.

Essa expedição não me ensinou que devemos sofrer.

Ensinou algo mais interessante:

somos capazes de suportar muito mais desconforto do que imaginamos quando existe sentido na direção em que estamos caminhando.

Essa última parte importa.

Sentido.

Não é o sofrimento que transforma.

É o que fazemos com ele.


Também voltei menos arrogante.

Espero.

Porque há poucas coisas tão eficientes para tratar a arrogância quanto passar horas empurrando uma bicicleta enquanto a Islândia parece produzir areia mais rápido do que você consegue atravessá-la.

Há sempre uma reserva secreta de orgulho dentro de nós.

Eu consigo.

Eu sou forte.

Eu sei.

Eu estou preparado.

A montanha escuta tudo isso com muita paciência.

Depois responde:

— Que interessante. Agora suba.

E você sobe.

Ou tenta.

E aprende.


Talvez uma das maiores lições tenha sido justamente essa:

não precisamos ser extraordinários para fazer coisas extraordinárias.

É uma ideia de que gosto muito.

Não éramos super-humanos atravessando a Islândia.

Éramos pessoas comuns.

Com dores.

Medos.

Famílias.

Trabalhos.

Contas.

Inseguranças.

Gente que sente frio.

Gente que se cansa.

Gente que às vezes gostaria de desistir.

A diferença talvez esteja menos em alguma capacidade especial e mais na disposição de continuar conversando com a dificuldade.

Só mais um pouco.

Só até aquela curva.

Só até o próximo posto.

Só até o topo.

Só até a próxima cachoeira.

Depois veremos.

É uma técnica extraordinariamente sofisticada chamada:

não resolver a vida inteira antes do almoço.

Recomendo.


Quando atravessei aquela ilha, não provei que sou invencível.

Descobri exatamente o contrário.

Sou vulnerável.

Meu corpo tem limites.

Minha mente oscila.

Minha confiança diminui.

Há momentos em que preciso dos outros.

Há momentos em que alguém é mais forte por mim.

Isso não diminui a experiência.

Isso é a experiência.

Autossuficiência é uma fantasia muito sedutora.

Interdependência é muito mais verdadeira.

Talvez também seja muito mais bonita.


Agora estou de volta à vida.

Há pacientes esperando.

Projetos.

Livros.

Filhos.

Mensagens.

Prazos.

Amigos.

Uma casa.

Uma esposa.

Mil coisas que amo e algumas centenas que provavelmente aceitei fazer sem compreender muito bem por quê.

A Islândia já começou a virar memória.

Daqui a alguns anos talvez eu esqueça a ordem exata das etapas.

Talvez confunda distâncias.

Talvez uma subida de 800 metros se transforme, por algum mecanismo perfeitamente legítimo da memória masculina, em 1.400.

Mas algumas coisas permanecerão.

O som das rodas no cascalho.

A neblina fechando o mundo.

O branco da neve contra a cinza vulcânica.

O verde absurdo de Þórsmörk.

Skógafoss rugindo no final de um dia interminável.

O gosto da comida quando qualquer coisa quente parecia gastronomia estrelada.

Os rostos.

As piadas.

As pessoas esperando umas pelas outras.

E aquela estranha descoberta:

nos primeiros dias eu queria que o sofrimento acabasse.

Quando terminou, alguma parte de mim já sentia falta dele.

Ser humano é realmente um projeto de engenharia bastante questionável.


Se hoje me colocassem novamente no alojamento antes daqueles 105 quilômetros e me dissessem exatamente o que aconteceria no dia seguinte, talvez eu tivesse informações suficientes para tomar uma decisão madura, racional e sensata.

Espero jamais chegar a esse ponto.

Porque provavelmente respiraria fundo, ajustaria o capacete e diria:

mandem tudo.

Eu quero o inferno completo.

Não porque o inferno seja bom.

Mas porque, às vezes, do outro lado dele existe uma versão mais ampla do mundo.

E uma versão um pouco mais humilde de nós mesmos.

Talvez seja isso que continuo procurando quando corro montanhas, escrevo livros, estudo coisas que não preciso estudar, começo projetos improváveis e tento viver várias vidas dentro desta única que recebi.

Não uma fuga da vida comum.

Muito pelo contrário.

Quero voltar para ela mais vivo.

Quero chegar em casa e abraçar melhor.

Quero escutar melhor.

Quero trabalhar melhor.

Quero escolher melhor onde deposito as horas finitas que ainda tenho.

Quero que o extraordinário não substitua o cotidiano.

Quero que o ilumine.

Porque, no final, talvez todas essas travessias gigantescas sirvam apenas para nos ensinar algo muito pequeno:

o oceano que procuramos quase nunca está apenas do outro lado da ilha.

Às vezes ele está do outro lado de nós mesmos.

E só descobrimos isso quando seguimos caminhando.

Rafael Reinehr
Alquimista de Possibilidades, um Anarquista Cordial.

PS: Mais de 200 vídeos feitos com drone + Insta 360 + iPhone e Android serão vagarosamente curados e gerarão um ou mais arquivos em vídeo que oportunamente serão publicados no Youtube e além. Aviso-vos por aqui quando isso acontecer 😉


A Semeadura do Arqueologia do Impossível – contos sobre o avesso do real

Há livros que terminam quando são impressos. Outros só começam verdadeiramente quando chegam às mãos — e à imaginação — de alguém.

No dia 23 de setembro, quero celebrar com vocês o nascimento de Arqueologia do Impossível — contos sobre o avesso do real.

Convido meus amigos, pacientes, leitores e todos aqueles que gostam de espiar pelas frestas da realidade para o lançamento presencial do livro e a sessão de autógrafos.

📍 Bar da Casa
Rua Barão do Triunfo, 995 — junto à Praça dos Bombeiros (em Santa Maria – RS)
📅 23 de setembro
🕰️ Das 19h às 21h30

Será um encontro sem cerimônias excessivas: livros, abraços, conversas e afetos. Depois do autógrafo, poderemos ficar por ali, petiscar alguma coisa e brindar com a bebida que cada um preferir — porque toda arqueologia fica mais interessante quando feita entre amigos.

Venha quando puder, permaneça quanto quiser. Sua presença ajudará a transformar uma noite de lançamento em uma memória bonita.

Estarei esperando por você — deste lado do real ou, quem sabe, um pouco além.

O livro estará disponível para aquisição no local ao valor de 60 reais.

📸 Fotos da Semana

💟 No Que Estou Trabalhando

  • Algumas ocupações das últimas semanas:

    • Atravessei a Islândia de bike, correndo e de caiaque, entre 9 e 15 de agosto de 2026. Põe trabalho nisso!

    • Iniciei alguns projetos literários (e já finalizei parte deles), entre eles:

      • O Bunker – Casa Profunda (depois mudei o nome para Mil Metros Abaixo de Deus): trata-se de um thriller especulativo, climático, pandêmico, filosófico e humano, com inspiração longínqua em obras como O Problema dos Três Corpos, Silo, Estação Onze, Children of Men e thrillers literários de alta tensão moral.

      • Pequenos desabamentos: contos psicológicos e psicopatológicos com forte fundo literário, sem tornar raso complexo, sem deixar técnico o humano

      • Grandes desabamentos: o mesmo que acima, a ideia surgiu a partir do primeiro projeto. Enquanto nos Pequenos desabamentos os personagens encontravam eventualmente algum tipo de graça ou redenção, nos Grandes desabamentos geralmente os finais não são felizes. É angústia em cima de angústia. Para estômagos e mentes “adequadamente formatados”.

      • Aleatoricontos: um espaço para criação de contos aleatórios idealizados “out of the blue” geralmente inspirados em alguma história real pinçada aqui ou acolá

      • Onde a chuva ainda alcança: uma novela literária sobre os corpos que o poder escolhe para punir e sobre tudo aquilo que, apesar dele, continua atravessando os muros.

      • A Máquina do Tempo de 1 Minuto: contos sobre uma máquina narrativa que volta exatamente 1 minuto. 10 contos independentes, todos baseados em uma premissa comum: existe alguma forma – tecnológica, mágica, metafísica, espiritual, biológica, acidental ou absurda – de voltar exatamente 1 minuto no tempo. Cada conto explora uma variação dessa premissa, com personagens, atmosfera, dilemas e consequências próprias.

        Mas há uma camada adicional essencial: este livro não é apenas literariamente sobre uma máquina que volta 1 minuto. Ele é também metaliterariamente uma máquina que volta 1 minuto. Ou seja: em cada conto, há uma estrutura interativa em que o leitor chega a um ponto crítico da narrativa e pode escolher entre dois caminhos. Mais adiante, cada caminho se bifurca novamente, levando a dois finais possíveis. Assim, cada conto tem:

        * Uma narrativa inicial comum;

        * Um ponto de bifurcação com 2 plot twists possíveis;

        * Dois ramos narrativos derivados desses plot twists;

        * Em cada ramo, uma nova bifurcação;

        * Ao todo, 4 finais possíveis por conto. Loucura! E já está pronto!

      • Fé de erratas: e, se de repente, Borges descobrisse que é um personagem de Cortázar? Essa é a premissa básica do nossa nova novela. Realidade histórica em uma Argentina de 1984 e algo mágico nas entrelinhas. Quem tem direito de corrigir a quem?

      • Geografia das Coisas que Não Lembramos – Seis histórias sobre aquilo que permanece: um livro de seis contos longos, independentes, ambientados em seis regiões cultural e geograficamente distintas do interior do Rio Grande do Sul. Uma obra sobre memória, esquecimento voluntário, culpa, silêncio, luto, identidade, covardia, perdão e as narrativas que construímos para conseguirmos continuar vivendo.

        A frase subterrânea que une toda a obra é:

        «Existem coisas que esquecemos. Outras, fazemos questão de não lembrar.»

      • Tudo o que ficou na casa: Romance em estrutura aracne-49. E se um romance seguisse a estrutura de criação de uma teia de aranha? Um delírio que está dando certo, mas me dando um nó na cuca, mesmo com ajuda de IA. Falarei mais detalhadamente nas próximas edições do Quintessencial.

      • Estratos: Depois da morte da mãe, um jovem arqueólogo retorna ao Rio e descobre que o pai passou sua infância enxergando no rosto dele a prova de uma traição; ao viajar por ruínas da Grécia, Egito e Palestina em busca de vestígios de civilizações mortas, ele começa a escavar a própria origem — até perceber que pode estar repetindo exatamente o erro que destruiu sua família: confundir vestígios com certeza. Estratos nasce como um romance de investigação narrativa: uma obra que entra num espaço deixado em silêncio por um clássico sem pretender corrigi-lo, derrotá-lo ou solucionar sua ambiguidade. A inspiração conceitual vem da família de romances-resposta em que uma voz ou consequência lateral do original se torna centro de outro livro. O paradigma discutido na origem do projeto foi a relação entre O Estrangeiro, de Albert Camus, e O Caso Meursault, de Kamel Daoud.

      • E tem mais coisa, muito mais. Andei bem fértil de ideias e meti a mão na massa com vontade nos últimos meses.

    • Passei muito tempo longe de meus filhos e pacientes: Reikjavik, travessia da Islândia, Londres, Paris, Avignon, Barcelona, Valencia, Granada… Dinheiro saindo como torneira aberta e não entrando. Nesse tempo, consegui usar um pouco da cabeça em alguns intervalos para os projetos acima, mas bem aquém do que costumo fazer. Aproveitei deslocamentos longos, mas a internet instável nem sempre ajudou. Meu maior trabalho dos próximos dias vai ser acarinhar, amassar, apertar, amar, mimar e dar muito tempo e atenção aos meus filhos.

    • Pensando num jeito de fazer um Metacaderno de Literatura e a melhor forma de compartilhar por aqui, para que eu possa ao mesmo tempo registrar e compartilhar meus processos criativos, sem que isso tome um tempo demasiado que compita com o próprio ato de criar. A reflexão metacriativa é deliciosa. O processo de registro dela, nem sempre.

💬 Citação da Semana

“Os livros são as abelhas que transportam o pólen fecundante de uma mente a outra.”
— James Russell Lowell

Toma um Regalo!

Tenho alguns arquivos interessantes de presente lá no Notion. Por enquanto, conteúdos relacionados à Dormir Bem, Bem-estar e Forças de Caráter/Psicologia Positiva, Mindfulness, Saúde e cada mês algo novo!

Acesse https://reinehr.notion.site e dê uma espiadela!

Post Script

E, para você que não é dos “movimentos”, segue uma tabela que os explica. Quando maior o número de bpms (ou batidas por minuto), mais rápida e agitada é uma música. Ao contrário, quando menor o número de bpms, mais lenta e arrastada ela é. Fiz uma analogia com a vida, para fins de comparação sobre o nosso ritmo pessoal, e como andam nossas escolhas: será que está dando tempo de fazer tudo de forma cadenciada e agradável ou estamos “atropelando compassos”?


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Editado e produzido por Rafael Reinehr, Alquimista de Possibilidades e Anarquista Cordial da The Love & Brains Cooperation.

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